Domingo acabou a luz;
E não chegou a segunda.
Embaralhou-se a semana,
Que começou só em agosto
Do terceiro semestre
Às duas horas em ponto.

De quarta-feira a março,
Tivemos trinta e seis horas.
Mas naquele mês de sábado,
- dos doze dias da semana -
Quarenta foram de feriado.

Escureceu sexta-feira,
Mas fui dormir só em janeiro.
O calendário tocou; conferi meu relógio:
Trinta anos e meio.





Escrever sobre o amor...
Escrever sobre o mar...
Que vontade eu tenho
De tudo plagiar!





Quando o trem que margeia o Rio Pinheiros encerra suas atividades diárias na cidade de São Paulo, pelo período da meia-noite às quatro da manhã, o rio é envolto em escuridão. Salvo pelo reflexo da lua e de alguns prédios em suas águas turvas, e pelo som dos carros que passam alheios à sua existência nas vias marginais, o rio é pura solidão. Solidão que é acentuada nas madrugadas de lua encoberta, em que o rio está completamente escondido nas sombras. Na penumbra pela qual passa uma das figuras mais intrigantes e obscuras da metrópole.

Desconhecido pela grande maioria da população, negado e chamado de lenda pela prefeitura, e segredo entre os funcionários das entidades que trabalham em vão para despoluir o rio, um ser de aparência incomum passa por aquelas águas, sempre nas noites mais escuras do ano. Passa silencioso, remando uma antiga canoa indígena. Algo um tanto peculiar para um rio poluído como é o Rio Pinheiros - um rio morto.

Esse canoeiro do Rio Pinheiros - não raramente - é confundido com os mendigos ou catadores de lixo, que arriscam suas vidas atrás de garrafas pet no rio. Poucas pessoas o viram e conseguem descrevê-lo com exatidão, em vista da total escuridão, caligem, e clima oculto do encontro. Um encontro um tanto esparso, em vista do pouco interesse das pessoas no rio em noites sem lua.

Os relatos mais acurados - de algumas poucas pessoas - o descrevem como um homem de pele escura e cabelos longos, magro, e com mais de dois metros de altura. Dizem que rema uma canoa de madeira crua, sem nenhum tipo de pintura ou decoração. O homem rema em pé, e está sempre completamente nu, salvo por uma pintura corporal vermelha, que se confunde com a cor escura de sua pele. A pintura começa entre o umbigo e o peito, e preenche seus braços e sua cabeça completamente em vermelho. Presa à ponta superior de seu remo, há uma cabaça seca, decorada com poucas penas amarelas. As raras pessoas que dizem já terem visto seus olhos, relatam que são olhos completamente brancos e sem pupila. Brilhantes como pérolas. Entretanto, todos que dizem tê-lo feito, afirmam veementemente que ele não é cego. Pelo contrário, parece poder ver mais do que os olhos comuns conseguem.

Alguns especialistas em história e cultura nacional, quando consultados sobre o assunto há poucos anos, chegaram - por incrível que pareça - a uma conclusão comum. Pela descrição da aparência física e da pintura corporal vermelha na parte superior do corpo, afirmaram tratar-se de um xamã – ou pajé – Mbyá-Guarani ou Nhandevas-Guarani. Mas, a identificação crucial como xamã foi feita pela cabaça seca com penas amarelas, presa ao topo de seu remo. Essa cabaça seca – disseram - é na verdade um maracá, tradicional chocalho indígena utilizado em festas e cerimônias religiosas. Os olhos totalmente brancos não tiveram explicação, entretanto. Disseram ser possível que fosse alguma doença ligada à cegueira, apesar dos relatos adversos. Ao finalizarem a análise dos relatos, todos especialistas também entraram em consenso sobre outra coisa: um xamã de associação Guarani remando no Rio Pinheiros em tempos atuais, durante madrugadas de lua encoberta, não era nada mais do que uma lenda ou crendice popular.

No dia em que o vi, eu estava sobre a ponte Santo Dias da Silva, e eram duas horas da manhã de uma quinta-feira do mês de julho. Ano corrente. Não costumo prestar atenção ao rio, ainda mais numa hora dessas, apressado para chegar em casa. Mas, ao olhar além da grade que separa a calçada da queda ao rio, o que vi na escuridão foi um vulto deslizando exatamente abaixo de mim - próximo à margem direita – seguindo o fluxo natural do rio no sentido centro. A noite escura não permitiu que eu visse nada além de sua sombra. Quando os poucos carros que passavam pela ponte sumiram na neblina, e a noite ficou em total silêncio, pude escutar o som de um chocalho. O maracá. Tocado em um ritmo lento, porém mais acelerado do que as remadas, era como se o condutor da canoa não estivesse simplesmente remando e tocando, e sim ritmando minuciosamente aquela passagem como num ritual. Um ritual soturno e hipnótico. Duas palavras chegaram fracas aos meus ouvidos, trazidas pelo vento, logo antes de duas motos passarem barulhentas pela ponte: ‘eju ápe’.

Senti meu corpo gelar mais ainda na noite fria, quando olhei para a margem do rio, e vi capivaras acompanhando a canoa em um enorme bando, completamente atentas àquela sombra de estatura alta que passava na escuridão. Já havia visto dezenas de capivaras às margens do Rio Pinheiros, mas nunca havia visto tamanha quantidade delas juntas. E de forma tão uniforme e organizada, hipnotizadas pelo fraco som do maracá. A grande maioria era de animais adultos, mas havia alguns filhotes também. Andavam como uma gigantesca massa viva e marrom-brilhante - entre o rio e os trilhos do trem - cobrindo completamente a ciclofaixa vermelha e a grama de verde apagado pela noite.

Apressei meus passos sobre a ponte, sobressaltado com aquela visão. E aquele frio que havia gelado o meu corpo há alguns segundos, simplesmente despareceu. Não passou regularmente, aquecido pelo movimento rápido das minhas pernas, ou ao sair da linha do vento, mas de uma vez só. Repentinamente. Decidi apertar o ritmo da caminhada ainda mais, sem olhar para trás, e, ao chegar em casa, guardei aquela experiência somente para mim.

Algum tempo depois, enquanto fazia pesquisas na internet, descobri um estudo de 1988 sobre uma tribo Guarani que viveu na região da Serra do Mar - mais especificamente no norte do estado de São Paulo - e que migrou do interior em direção ao litoral em uma busca pela Terra sem Mal (Yvi Mara Ey). Essa tribo, já extinta, acreditava que as almas dos humanos cujas vidas terminavam de forma violenta, atordoadas ao não encontrarem escape do plano terreno, reencarnavam em corpos de animais. E, antigamente, para evitar que isso ocorresse, os índios mortos em batalha - ou de qualquer outra forma violenta - eram enterrados próximos a um rio, de forma que suas almas pudessem escapar pelas águas subterrâneas. O rio era uma passagem sagrada, que libertava essas almas torturadas para seguirem seus caminhos além-terra.

O que flutua no Rio Pinheiros, em São Paulo, no ano corrente, nas noites em que a escuridão quase não permite a visão, não é somente um homem remando uma canoa. O misterioso índio-xamã que rema sua canoa oculto pelas sombras, vindo de algum lugar onde provavelmente vive recluso como ermitão, ou então em um quilombo ou tribo perdida na imensidão de 315.000 hectares da mata atlântica, atende a um propósito. Ele vem - talvez por um fino rio ligado à Represa Guarapiranga ou Billings - atender a um chamado tão antigo quanto a própria vida humana. Pois ali, naquele frio que repentinamente gelou meu corpo naquela madrugada de julho, envolto na neblina da ponte Santo Dias da Silva, estavam as almas de motociclistas atropelados, crianças assassinadas, e suicidas, entre outras pobres almas acidentadas que ainda ecoavam o som das sirenes atrasadas.

Busquei mais respostas. Os índios da aldeia Krukutu, localizada no extremo sul do bairro de Parelheiros, também na região da Serra do Mar – e que tem associação Guarani Nhe’e Porã -, quando questionados sobre o assunto, disseram desconhecer a questão de qualquer pajé ou xamã. Mas a cacique, uma senhora com seus oitenta anos de idade, explicou num tom sério e honesto que o rio é poluído a partir do momento em que entra na cidade, pois é sujo pelas almas de seus moradores. Moradores que não respeitam suas águas sagradas. Segundo ela, a água do rio nasce em reservas indígenas milenares. Emana pura da terra, e se mistura com outras águas enquanto corre pelo leito do Rio Guarapiranga e Rio Grande até formar o Rio Pinheiros. Este, por sua vez, entra na cidade com suas águas ainda límpidas, mas é infectado pela impureza e maldade das almas dos homens brancos, que buscam no rio um caminho para se libertarem. Então suas águas são profanadas e o rio morre, e segue morto até o seu destino final - o Rio Tietê. Por fim, as almas impuras permanecem perdidas às suas margens. Sim, algumas vezes – disse ela, em resposta à minha pergunta - na forma de animais.

A única forma de salvar o rio - complementou a cacique - não é através da prefeitura, nem através de organizações não governamentais. Somente quando o homem branco purificar sua alma, e mostrar o seu respeito às águas sagradas, o ambiente voltará ao seu equilíbrio natural. Então, as almas torturadas da cidade poderão voltar a ser levadas para o outro mundo, como aconteceu por milhares de anos antes da civilização.

Porém, enquanto a cultura da cacique não tem previsão de gerar frutos, continuaremos a ter uma visita noturna rara e imperceptível, nos dias mais escuros do ano. Algo que poucos tiveram ou terão a chance de presenciar, e cuja própria existência continuará obscura à maioria da população. De forma serena, o xamã continuará vindo à cidade no silêncio e escuridão das noites mais negras, e, remando lentamente pelo leito do rio impuro, tocará seu maracá. Olhará demoradamente dentro dos corpos dos animais às margens do Rio Pinheiros, e libertará as almas presas ao campo terreno em corpos de capivara. Pobres almas temerosas, que deixarão seus corpos em sofrimento. Almas que profanaram o rio em suas tentativas de libertação.

É um trabalho milenar, feito na penumbra de uma São Paulo que dorme profundamente; e que quando acorda, nem percebe as almas perdidas que foram salvas durante a madrugada.





A vida é assim;
num dia ravioli,
no outro, nissin.




são paulo é cambalear                                                
         entre uma praça                                                
   e uma ogiva nuclear                                                




Não precisa
Ser tão precisa
A mente
Nos mente
Precisamente






deitou desejando
desesperadamente descanso
daquela dor demente. desabafou:
deixem-me,                       desejo dormir
deixem-me,                           desejo delirar
deixem-me,                            descansar desta
deitem-se,                             desistam disso
deixem-me,                        doente desistir
destilem duas dessas doses dentro
dessa demente doença, tão densa
e definharei dopada



estou em estado de estopim. espero essa
explosão, e encerro enfim essa enfadada
e escrotal
existência
espero, então, entes espantados
encontrarem-se, enterrarem-me
e encerro,
eloquente,
essa espera exaustiva, esse encurralado
encontro, que evitam, evasivos, encarar



                                    assisti
                                assombrado
                           àquela afirmação.
                       antes                   assim,
                   aberta,                       afinal.
               afrontava aquilo. aquela abrupta,
           assustadora apatia, articulada assepsia,
       andava                                            apertada
   ao amor.                                                aceitava.
aquilo ali,                                                  acabaria ali



doze dias depois disso,
descansava demoradamente da
dor. deitada na dada decomposição,
o destino dela.                     deuses deram
o desejo dela:                          doce descanso.
deliciosa data,                          definitivos dias,
deste denso                              e desenfreado
destino. ela                            demorou-se
diante dos deuses, desencarnou dessa
demência, e deitou definitivamente
dentro de deliciosa dádiva






Foram dias desumanos
De enganos, de demoras
Esmolas pelas janelas
Cancelas nos separando
Velhos em pé observando
Gritando à toa, procurando
Conservar todo o absurdo

Dias de torpor e céu ausente
Quando nada é certo e só
Aquilo mesmo é alguma coisa
E fica tudo tão escuro, tão duro
Que por hoje não mais sinto

São nesses dias desumanos
De encontros frios, muito sono,
Computadores piscando,
Janelas trancadas, corações longe
Que ficamos a ponto de perder
Sem querer, nós mesmos




Raramente uso vírgulas
Quase nunca pontos finais
As pessoas pausam, e acabam.
Os poemas jamais




Foi num desses dias, em que abri o armário - usualmente fechado – procurando alguma coisa, e acabei me perdendo.

Tenho minha própria Nárnia.

Nesse dia em particular, queria uma revista, que sabia que havia guardado lá. Mas acabei batendo o olho num pequeno álbum de fotos, daqueles Kodak, de papelão com divisórias plásticas, que vinham com a revelação.

Peguei.

Abri.

Não eram fotos boas. Olhos vermelhos, fotos tremidas, umas fora de foco, outras poucas com cores já meio opacas. E tiradas em momentos totalmente inoportunos, algumas chegando a ser incompreensíveis. Muito contemporâneas até – pensei um tempo depois -, levando em conta as últimas tendências de câmeras vintage e fotos com aparência antiga ‘de filme’.

Ali retratadas, estavam pessoas que eu sempre achei que não haviam mudado nada com o passar dos anos, mas agora, naquelas chapas, pareciam completos estranhos.

Aquelas fotos haviam sido tiradas há doze anos. As datas estavam lá, impressas nos cantos inferiores direitos, em números quadrados e laranjas. Será que estavam certas? Pensei que talvez pudessem ser um pouco mais antigas. Geralmente um filme de 36 poses eu não gastava tão rápido. Às vezes durava quase um ano.

Quando me dei conta disso, naquele exato segundo, percebi que aquilo que eu segurava nas mãos valia ouro. Aquele ‘albinho de foto’ (sic) retratava - em 36 fotografias ou menos - talvez um ano inteiro da minha vida.

Parei de virar as páginas.

Imaginei quantos armários ainda teria na vida, e se o eu-futuro iria guardar e ver novamente aquelas fotos algum dia. Pensei ainda se as pessoas sorrindo nas fotos ainda estariam por perto. E se estariam ainda sorrindo.

Decidi que sim, e guardei de volta o álbum.

Na mesma prateleira do armário, num saquinho, estavam os negativos. Um rolinho - agora aberto – que continha os registros químicos dos momentos da minha vida que achei que mereciam ser registrados através do reflexo da luz.

Quanto tempo será que duram?

Voltei à minha busca pela revista.

Pouco tempo depois, já folheando a revista, pensei - o que as centenas de fotos que tenho no meu computador têm de digitais, afinal? - se comparadas às fotos que eu havia acabado de segurar entre os dedos.




Foram dias tão humanos
Sem planos, sem horas
Senhoras nas janelas
Panelas no fogo brando
Jovens em pé conversando
Versando ideias, procurando
Entender um pouco tudo

Dias de cor e céu transparente
Quando nada é nada e só
Alguma coisa é isso mesmo
E fica tudo tão claro, que paro
E sinto coisas mais simples

São nesses dias tão humanos
De noites quentes, pouco sono,
Colchões e roupas no chão,
Janelas abertas, latidos ao longe
Que ficamos tão perto de ser
Sem querer, nós mesmos




Em 1983
Nasci
E continuei
Cresci
Até um metro
E setenta
Engordei uns
Oitenta
Quilos
Perdi alguns
E cheguei
Aqui

Fiz tudo
Que pude
O que foi
Quase nada
Mas fiz tudo
Que o mundo
Esperava
De mim

Enfim
Não quero
Continuar
E morrer
Sem deixar
Bem claro
O absurdo
Que acho
Tudo

Não me importo
Com nada
Nada
Vejam onde estamos
Nesse planeta
Vagando
No infinito
Por entre outros
No vácuo
De um universo
Que não sabemos
Onde acaba

E essa cidade
Que é
Um trem
Que passa
Cheio de gente
Que passa
Cheia da gente
E não para

Que esperam
De mim?
Que me importe?
Que siga algo,
Acredite?
Mostre os dentes?
Parem com isso
Não esperem
Nada de mim
Nada, enfim

Somente atos
De quem sabe
Que em sessenta
Ou menos anos
Estará morto
E enterrado
Passado

De que vale
Isso tudo?
Esse grande
Absurdo?
Ah, parem
Parem agora
Com essas histórias
De progresso
De regras
De roupas
Status-quo
Costumes
E manuais

Vejam
O mendigo
Que olha
Aquela vitrine
Sabe mais
Do que eu

Ele sabe
Quanto vale
Um minuto
Uma chuva
Uma praça
Eu não sei

Quanto custa
Não é
Quanto vale
Não sei
De nada
Que ele sabe

Então
Contemplo
Com atenção
Talvez aprenda
Algo que não
Seja ilusão
Enfim

Nada dura
E não sabemos
Onde estamos
Nem se somos
Se vivemos
Digo parem
Com isso
Tudo
De uma vez por
Todas

Recomeço aqui
Do zero
Do nada
Não perco tempo
Pois não existe
Não lamento
Só me entorpeço
De vida
E deslumbramento
Pois é o que há
Aqui dentro

No fim
Virá a verdade
Enfim




Os dedos congelam ao guidão. As orelhas azulam no frio da manhã. O vento me abraça por debaixo dos braços, atravessando a blusa de lã.

Seria desagradável, se não fosse perfeito.

Olho pros carros andando metros, distantes centímetros. Enquanto quilômetros de janelas pretas separam motoristas sentindo milímetros.

E de lá de dentro, o asfalto que me cedem é buraco, pedra e poça.

Pra mim é pouco.

Faço espaço. Como quem se espreguiça numa cama sob o lençol preso por todos os lados. Como pés em sapatos apertados.

São Paulo não tem trânsito. São Paulo é trânsito. Mas chega de tratar aqui o trânsito como objeto direto, trânsito é verbo. Transitamos todos. Sábios e tolos.

Nesta manhã em particular, transito no frio e faz sol. E me serve bem esse sol frio. Uma promessa de temperaturas melhores. Às vezes, bastam as promessas. Já me aquecem por dentro, essas.

O orvalho da madrugada desperta o perfume dos eucaliptos. E outras árvores pelo caminho brilham suadas nas calçadas. Às vezes me estendendo uma mão com poucas folhas, e me dando um tapa molhado no braço. Sereno, eu passo.

Chego ao meu destino-endereço. Desço ao estacionamento e da bicicleta. Subo pro trabalho. Quinze andares.

E a vida fica me esperando lá embaixo, presa numa grade.

São oito da manhã, e já é tarde.





o silêncio mata o som
         sem dó e sem bemol
o som mata o silêncio
                   lá
         numa chacina em sol




trinto e nada sinto;
setento a parecer
morno e calmo; minto
por dentro; explodo
todo.
absorvo mudo, tudo.
absurdo tudo,
mudo.





Eis que, andando pela rua, encontro uma lista de afazeres.

Escrita num papel de anotar recados telefônicos, o papel por si só - com marca d’água pra hora e nome - é uma pequena raridade. Em tempos de smartphones e tablets, alguém mantém ainda um bloco de papel ao lado do telefone - fulano ligou. Telefone Fixo. Do tempo em que as pessoas marcavam compromissos com uma semana de antecedência e compareciam, ao invés de enviar uma desculpa constrangedora por SMS em cima da hora.

Dobrado cuidadosamente, um pequeno mapa do cotidiano de uma pessoa. Quem perde um papel na rua certamente não planeja tê-lo lido por um intruso. Não respeito. Leio. Uma lista de afazeres. Às vezes, tão pessoal quanto uma carta de amor.

Enfim; letra pequena, de fôrma. Tinta azul.

Buscar calça. Que beleza! Já começamos pela moda. Imagino que calça seria. Muito curta, comprida demais, larga no cinto, apertada talvez. Ou seria uma calça nova? Talvez um presente, visto a data comemorativa que se aproxima. Bom, quem quer que tenha escrito essas palavras, com certeza não se opõe ao uso de calças. Isso tenho certo.

Cortar o cabelo. E por que não? Uma bela aparada nas madeixas, um tapa na gafurina. Afinal, hoje é sexta-feira. Como encarar um fim de semana tranquilo, sem suprir as necessidades capilares antes? Me espanta tal atividade depois de buscar calça, visto que deveria ser da maior importância. Escrito no bilhete com outra caneta – vejo pela tinta – está o número 2. Duas horas talvez. São quatro e dez agora. Cabelo cortado.

Banco. Claro, afinal de contas, cortes de cabelo não são grátis, muito menos calças (ou ajustes nestas). E todos temos contas.

Rodrigo. Mistério da lista. Seria o amante da fogosa dona de casa que carregava a lista em sua Yves Saint Laurent furada? O amigo com o qual o portador da lista tinha uma grande dívida, que começava a incomodar a amizade de anos? Quiçá o avô em estado terminal desta pessoa de letra pequena, que esperava ansiosamente uma visita para revelar-lhe um segredo de família. Enfim; permanece o mistério.

Carvão. Aí sim. Temos algo concreto. Em uma sexta-feira como essa, em que os postos de gasolina empilham sacos de carvão - junto com placas de TEMOS GELO - em frente às lojas de conveniência prontas pra explorar os transeuntes, nada mais clássico. Sete quilos, provavelmente. Ou talvez quatro. Coisa pequena. Só os mais chegados.

Pedir desculpas p/ Dri. Certo. Pra não deixar ressentimentos. Compartilho por um segundo do sentimento do redator arrependido. Admiro o ato - ainda mais dessa forma - planejado. Está lá - irrevogável – escrito em tinta azul no papel branco. O arrependimento documentado. Como um assunto de estado, protocolado. "Vim pedir desculpa" - pede o ser de cabelos cortados e calças novas, parado à porta recém-aberta.

E a lista acaba por aí. Na vertical, alguns números rabiscados. Seis pra ser exato.

Talvez um jogo da mega-sena.

Rasgo a parte onde estão escritos os números, e jogo o resto do papel no lixo.

Talvez eu jogue também.





o
guarda-chuva
no meu ombro esquerdo chora
pinga fria água suja enquanto caminhamos
tanto faz
e
s
t
o
u
em
          paz




te chamo; e a chama
          que se acende
      quando se chama
inflama



Quantas moças precisam sorrir
                      Dentro de um elevador
Pra aquecer o mês de julho inteiro?



Garçom!
Uma mesa pra cem,
Por favor!

Uma cerveja e cem copos
Qualquer uma
Bem gelada
Sem espuma

Garçom!
Uma mesa pra ser,
Por favor!

Pra sentar e ser
Não escutar
Não falar
Nem beber

E o cinzeiro também



Engulo palavras que não passam pela garganta.
Mastigo e digiro cada letra, saboreio significados. Doces. Salgados.
Mas quando preciso de palavras, só me aparecem estas pastosas frases para crianças e doentes.
Inócuas aos dentes.
Prefiro então não digerir.
Da sopa de sobras, não ofereço uma colher.
De gosto de esgoto.
Desgosto.
Ofereço - quando posso - um vômito conciso e lacônico, esmerada refeição para moscas.



Ela na calçada
Ele na janela

Ela olhou pra baixo
Ele olhou pra cima

Rolou um clima



MIS
MASP
Bienal

Pinacoteca
Florença
Centro Cultural

Já fui em tudo

Não entendi um caralho





bailarina

a agulha e o caminho

dançam devagarinho


quase



não tocam

os dedos leves da moça

a respiração do silêncio

o vento



cantam

trocam mudam de lado

ouvem o choro chiado

passado




O rosto rubro frente à indecência
A obediência

Como finge bem
A ‘pessoa de bem’

Um modelo exemplar
De ser (menos) humano
Da forma correta
Um ledo engano

O pior tipo
                  O que mais me dá medo
É o sujeito
                  Que acredita em si mesmo




Fim de tarde amarelo.

A poluição é um prisma fosco para o sol.

As nuvens flutuam pesando toneladas.

Sinto que vou esquecer tudo que sei. Meu nome, endereço, senhas. Anoto freneticamente todos meus planos absurdos, agendas para os próximos segundos, ridículas observações sobre nada. Planejo minhas próximas palavras, para que ao abrir a boca não corra o risco de sair alguma verdade.

Vendo de dentro, tudo parece ridículo e gigan(gro)tesco. Engulo seco e preparo o teatro da minha vida. Tramo minhas mentiras detrás da cortina. Mas quando saio, não há plateia, somente eu. Então enceno para mim mesmo, e depois rio e aplaudo (sentado) à beça, tão absurda é a peça.

Penso em algum bom motivo – você – para não enlouquecer.

Às vezes funciona.

Hoje não.




Não escrevo
Só minto
Não sinto

Escreva a verdade
Quem sabe
De onde ela vem
Aqui não tem

É falso
Esse verso
E essa linha
Tudo



Botou um terno,
Pediu um Martini,
E tomou no cu.



Um dia, meu filho, isso tudo será seu.
Se fudeu.



O ‘plano B’
Você conseguiu
O que não queria fazer



É muito dedicado.
Um homem de trabalho.
O funcionário do mês.
Chato pra caralho.