Fui a uma festa na qual
Não conhecia ninguém
E aquelas pessoas,
                            tão parecidas!
Recém-velhas conhecidas
Botaram em terra minhas barreiras
A equívoca ideia do ser-umbigo
Descolaram-se meus olhos
E me vi num só e todos no meio
Ao lado da janela,
sem tijolos
Nos meus olhos,
estava a cela.








O horário de verão nos engana que ainda é tarde quando já é noite. E foi num desses começos de noite alaranjados em que eu pedalava pela Av. Sumaré, voltando pra casa no primeiro sábado do ano de 2013, com a cidade ainda vazia devido às festividades de ano-novo, que parei no semáforo embaixo da Av. Dr. Arnaldo (onde a Av. Sumaré já é Av. Paulo VI). Esperei que dois carros passassem emparelhados e sem pressa, atravessando a rua em direção à Vila Madalena, enquanto através de suas janelas abertas jovens gritavam uns com os outros em tom de brincadeira. Os dois carros desapareceram gritando na distância e o caminho ficou livre, mas fiquei ali parado em frente à faixa de pedestres, em parte pra descansar as pernas da subida que havia deixado para trás.

Escutei um barulho se arrastando atrás de mim, e me virei. Um catador de papel, com a carroça vazia, se aproximava lento prestes a parar comigo em frente ao semáforo ainda vermelho. Usava uma bermuda amarela, regata amarela, e boné amarelo, além de um tênis preto velho e óculos de sol. Tinha um rádio de pilha amarrado ao cabo que usava para puxar a carroça, e quando me viu virar a cabeça para vê-lo, disse algo que não consegui compreender devido ao barulho da rotação de um motor que se aproximava em alta velocidade. O semáforo ainda estava fechado, mas a calma da cidade não conteve a pressa de um motorista, que bateu no carroceiro exatamente no momento em que ele virava a carroça para se alinhar à minha esquerda.

O homem todo amarelo foi lançado ao ar como numa catapulta, quando o carro o acertou por trás levantando bruscamente a dianteira da carroça, e impulsionando-o para cima apoiado no cabo, o mesmo que servia de suporte para seu rádio. A realidade pode não ter sido tão teatral quanto minha memória, mas lembro de seus tênis terem ficado no chão enquanto ele voava para trás, de tão rápido que foi o choque. Como num desenho animado, a primeira lei de Newton dava um tom cômico à tragédia.

Observei atônito o carro de vidros escuros engatar a ré, desviar, e sumir por entre os últimos raios de sol em direção à Av. Henrique Schaumann, enquanto eu calculava que nunca poderia alcançá-lo de bicicleta. Então fui para a parte de trás da carroça, e lá vi o homem deitado no chão com os olhos semicerrados. Seu boné amarelo havia se colorido parcialmente de um tom vermelho-beterraba, e eu percebi que precisava de ajuda. Ao meu redor, a rua estava vazia, exceto por uma moto e um carro que seguiam na pista em direção contrária. Peguei meu celular e disquei o número 192, no qual uma pessoa me atendeu prontamente e pediu com calma dados do local e estado do acidentado. Enquanto eu descrevia a situação, os olhos semicerrados do homem se fecharam completamente.

Ao desligar o celular, vi na tela as horas. Os minutos, para ser mais exato. Minutos que pareceram passar em câmera lenta a partir de então, sem que eu escutasse nenhuma sirene se aproximando, nem nenhum carro vindo. Por quatro minutos e meio, em plena cidade de São Paulo, não apareceu no meu raio de visão nenhum carro e nenhum ser humano. E o único ser humano que eu podia ver, parecia não estar mais vivo. Pensei em ir embora, corri até o canteiro central da avenida, depois de volta, sentei na calçada ao lado da carroça e no mesmo segundo escutei um barulho de freio. Levantei e vi do outro lado do cruzamento um taxi que atravessava o farol vermelho e vinha em nossa direção.

O taxista entrou na contramão e deu a volta, de forma a parar em frente ao semáforo já verde, e desceu do carro segurando uma toalha branca. Naquele mesmo segundo, alguns poucos carros voltaram a tomar as ruas. Não lembro o que falamos um ao outro, ou se falamos algo, mas colocamos o homem severamente machucado no banco de trás do taxi, e largamos a carroça e a bicicleta jogadas no meio da faixa direita da Av. Paulo VI. Após colocarmos o ferido no carro, eu simplesmente abri a porta e me sentei no banco do passageiro, sem que o motorista esboçasse nenhuma reação. Pensando agora, o fiz porque me sentia responsável pelo homem, afinal ele se desviava de mim quando sofreu a batida. Seguimos em alta velocidade até o Hospital São Camilo, na Av. Pompéia.

Entre os muitos adereços decorativos, o taxi tinha no painel e no console central cerca de quatro ou cinco aparelhos de rádio escuta, além de dois rádios telecomunicadores presos ao guarda-sol. Parecia que todos estavam ligados simultaneamente, pois as vozes que emanavam de seus alto-falantes, todas sobrepostas, formavam um ruído inteligível para mim. O taxista desligou todos rapidamente quando eu entrei no carro.

Ao chegarmos ao hospital, o taxista automaticamente entrou no acesso de emergência, e descarregamos o homem ensanguentado sem nenhuma outra ajuda. Não trocamos uma palavra, que eu me lembre. Nisso, duas enfermeiras apareceram com uma maca, e receberam o homem que já carregávamos para dentro. Prontamente, uma o empurrou deitado na maca pra dentro de uma grande porta de metal, e a outra me perguntou se eu conhecia o acidentado. Não conhecia. Ela pediu que eu esperasse, e entrou pela mesma grande porta de metal, no exato momento em que eu me virava para agradecer o taxista, do qual só vi o carro indo embora. Gravei a placa de seu taxi na memória.

Tive que esperar na sala de espera, e me fizeram algumas perguntas sobre o atropelamento que respondi de má vontade. Após esperar três horas, já não aguentava mais, e entrei pela porta com a placa “proibido o acesso de pessoas não autorizadas”, e atravessei um corredor cheirando a desinfetante e fechado dos dois lados por cortinas de plástico. Ao ver um homem com roupa de médico, ou talvez enfermeiro, perguntei de pronto se o homem de roupa amarela que havia batido a cabeça estava vivo. O médico não pareceu incomodado de eu estar ali, apesar de ser uma pessoa não autorizada, e me respondeu que sim, que estava bem, e havia levado muitos pontos, mas que não poderia vê-lo e nem ficar ali. Enquanto eu saía, pensando se minha bicicleta ainda estaria no local do acidente, uma mulher de avental me abordou e pediu meu telefone, caso o acidentado precisasse de testemunha se quisesse fazer um boletim de ocorrência. Fui embora sem falar nada.

Cheguei ao local do acidente, já no escuro da noite, e vi a carroça vazia agora parada sobre a calçada e minha bicicleta jogada na grama do outro lado do passeio. O assento estava molhado, pois a haviam jogado sobre uma poça d’água, mas não pensei duas vezes antes de sentar e retomar minha volta pra casa.  Dormi após um banho rápido, num horário relativamente cedo para um sábado. Antes de botar a cabeça no travesseiro, anotei num papel a placa do taxi pra não esquecer. Havia muita coisa na minha cabeça.

No dia seguinte, acordei me sentindo bem. O sentimento de impotência por não ter conseguido ajudar de forma nenhuma aquela pessoa ensanguentada à minha frente, havia passado. E resolvi, tomando um café, que deveria sair e encontrar o taxista para agradecê-lo, e também passar no hospital pra ver como andava o carroceiro de má sorte.

Pedalei no domingo tranquilo até a Igreja do Calvário, na Praça Benedito Calixto, e parei num ponto de taxi pra perguntar do tal taxista. Descrevi o carro e a placa, e a aparência do motorista: um homem de cerca de setenta anos, estatura mediana, de pele branca, e barba e cabelos ainda mais brancos. E ambos muito longos. Disseram não conhecer, mas que deveria perguntar nos postos de gasolina da região, pois conheciam todos os taxistas. Ainda me disseram que eu dei sorte do taxista parar, pois geralmente não parariam para ajudar. Agradeci pelo tempo despendido, e saí de lá pensando se aquele taxista do dia anterior havia parado para ajudar, ou se havia vindo especificamente para ajudar, pois pela sua forma de chegar e preparo para a situação, parecia que eu havia ligado para ele ao invés do SAMU.

Nos nove postos de gasolina, e nos outros quatro pontos de taxi em que parei e repeti a história e descrição do homem, lamentaram o acidente, mas não puderam me ajudar. Enfim, parei numa lanchonete para comer, e na hora de pagar vi ao lado do caixa um adesivo com o telefone de uma cooperativa de taxi. Perguntei ao caixa se tinha outros contatos de taxi, e o homem me deu junto com o meu troco dois cartões de disque-taxi da região. Liguei. Porém, apesar da boa vontade da atendente, não havia registros de taxi com aquela placa no seu cadastro. A atendente prestativa ainda complementou, dizendo que representava todas as cooperativas de taxi de São Paulo, e que se aquela placa não estava no cadastro, o veículo era de outro município.

O garçom, que fumava um cigarro ao meu lado enquanto eu falava no celular, me disse quando desliguei: “eu conheço este senhor que descreveste aí ao telefone”. Não levei muito a sério, talvez pela própria forma despojada com que o garçom falava, como se estivesse somente puxando conversa fiada. Disse então, que o tal senhor almoçava lá todo dia quando trabalhava no ponto de taxi em frente. Disse ainda, enquanto se sentava à minha mesa de forma quase íntima, que o taxista se chamava João Severino Aparecido, e que era grande devoto de São Miguel Arcanjo. Lembrei instantaneamente de estar sentado no banco do passageiro do taxi, na Av. Pompéia, e de ver no painel do carro, entre todos os rádios escuta e telecomunicadores, uma pequena estátua de São Miguel Arcanjo com um dos pés sobre um demônio, e uma espada empunhada na mão. “O Aparecido nunca mais apareceu” - disse o garçom, ciente do trocadilho - “já fazem mais de dois anos”.

Peguei o caminho de volta pra casa, sem nem passar no Hospital São Camilo. O acidentado havia sobrevivido, o culpado nunca iria ser responsabilizado, e o resgate havia sido feito por um taxista aposentado. Tudo havia se resolvido e o mundo continuava a girar, assim como as rodas de minha bicicleta, que se distanciava da região em direção ao esquecimento. Já não pensava mais no dia anterior quando passei em frente ao Parque Ibirapuera, onde uma ou duas dúzias de pessoas assistiam a algum tipo de evento ao lado do Monumento às Bandeiras. Cheguei mais perto, atravessando a avenida quando o semáforo para os carros fechou, e vi que se tratava de uma gravação para a TV, com câmera, iluminação e repórter. Ignorei, e cheguei em minha casa após vinte minutos.

Pouco antes de dormir, sentei ao computador para ler meus e-mails, e não me contive de pesquisar o nome do taxista que havia sido dito pelo garçom da lanchonete. Não encontrei nada só com o nome, mas quando coloquei o nome com “taxista” no campo de pesquisas, duas notícias datadas do fim de 2010 apareceram. As duas tinham o mesmo texto e a mesma foto, porém em sites de notícias diferentes.

Na madrugada do dia 12 de novembro de 2010, o taxista João Severino Aparecido havia sofrido um acidente com um caminhão, cujo motorista se chamava Paulo Alberto Galvão. O acidente havia ocorrido na Av. Vinte e Três de Maio, próximo ao túnel do Viaduto Jaceguai, na região central. Segundo relatos, o caminhão perdeu o controle da direção após passar por um bueiro horizontal sem grade, e atingiu o taxi, que capotou duas vezes antes de colidir com uma parede. O resgate demorou a chegar, e dois dos passageiros do taxi morreram enquanto aguardavam a chegada de socorro no local. Entre estes, estava a filha do taxista, Gabriela Regina Aparecido, de 17 anos. Os motoristas de ambos os veículos sofreram apenas ferimentos leves.








Você me abraçou e chorou no aeroporto
Percebi ali que ia ter saudade
Descobri ali que essas coisas acontecem
                   de verdade






O cartão postal - que maldição - não serve a nada.

O verso da foto não serve à prosa.

Literatura d’um parágrafo; o resumo da vez que não pode ser resumida.

Meio a meio, o endereço e a vida.

Escrever ao singular, sabendo que as palavras serão públicas. Quem respeita a privacidade d’um cartão postal?

Ninguém. Mais fácil seria publicar o amor num jornal.

Escrever na parede a saudade - pra qual não bastaria um livro - muralha da China.

Lido e relido, um epítome de entranhas.

E, no fim, a que restam as distantes palavras derramadas à tinta, senão que marquem a página d’um livro, ou forrem uma gaveta, se muito.

É pouco.

Mas valem, afinal, o calafrio de quem abre a caixa do correio.

De quem encontra em meio às cartas, o amor pelo meio.






...

Sua primeira memória é de quando tinha seis anos de idade.

É a memória do apartamento de sua avó, que ficava a duas quadras do apartamento de seus pais. Era um apartamento alugado que cheirava a folhas de plantas, visto que ficava no segundo andar, e de frente para a copa das árvores do jardim. As paredes eram cobertas de quadros abstratos que ele não entendia. Cores, rabiscos e formas geométricas das mais diversas, pintadas à tinta de formas confusas e incompreensíveis sobre telas. Fora os quadros, era um apartamento sóbrio e comum, no qual ele passava quase todas as tardes da semana ao voltar da escola, até que sua mãe viesse buscá-lo às quatro da tarde.

Entre o farto almoço e a hora de ir embora, fazia sua lição de casa debruçado sobre uma antiga escrivaninha cheia de ornamentos em madeira que ficava no canto da sala, enquanto sua avó assistia à televisão em alto volume a poucos metros de distância. Ele se lembra de como era difícil se concentrar na lição com aquele barulho de programas de auditório, e de como o sol claro entrava pela janela atravessando as copas das árvores no meio da tarde, contrastando com a madeira escura da escrivaninha.

Sua segunda memória mais antiga é de seus pais.

Ele se recorda de cada vestido que sua mãe, que trabalhava como secretária, usava. Todo dia, quando ele entrava na cozinha pra tomar o café da manhã antes da escola, ela estava usando um vestido de cor diferente, de acordo com o dia da semana. Na segunda-feira era laranja, na terça-feira era verde, e assim por diante. Sábados eram amarelos. Na frente do bolso do vestido, ia preso um crachá com uma foto 3x4 de seu rosto e seu nome escrito logo abaixo. Às vezes ela se esquecia de tirá-lo ao chegar em casa, e, passada a pressa de preparar o jantar, acabava adormecida no sofá tarde da noite com o crachá ainda preso ao peito.

Seu pai era supervisor de obras, e usava um uniforme igual todos os dias. Era ele quem o levava à escola de manhã, em uma Parati azul-clara com o rádio ligado no canal de notícias. Recorda-se especialmente da velocidade com a qual o locutor da rádio falava, e como usava palavras complicadas, as quais ele ainda não entendia. Às vezes, seu pai ficava furioso com uma notícia e falava algo, sem tirar as mãos do volante ou os olhos da rua, e em resposta ao pai, ele concordava veementemente com a cabeça. Achava interessante a forma como seu pai lhe tratava, de igual para igual, pois todas as outras pessoas que havia conhecido em sua ainda curta vida o tratavam como criança. Não era raro também que seu pai risse de algo que o locutor de rádio havia dito, e ele o acompanhava naquele riso mesmo sem saber do que se tratava, de tão contagiosa que era a risada.

...






Domingo acabou a luz;
E não chegou a segunda.
Embaralhou-se a semana,
Que começou só em agosto
Do terceiro semestre
Às duas horas em ponto.

De quarta-feira a março,
Tivemos trinta e seis horas.
Mas naquele mês de sábado,
- dos doze dias da semana -
Quarenta foram de feriado.

Escureceu sexta-feira,
Mas fui dormir só em janeiro.
O calendário tocou; conferi meu relógio:
Trinta anos e meio.





Escrever sobre o amor...
Escrever sobre o mar...
Que vontade eu tenho
De tudo plagiar!





Quando o trem que margeia o Rio Pinheiros encerra suas atividades diárias na cidade de São Paulo, pelo período da meia-noite às quatro da manhã, o rio é envolto em escuridão. Salvo pelo reflexo da lua e de alguns prédios em suas águas turvas, e pelo som dos carros que passam alheios à sua existência nas vias marginais, o rio é pura solidão. Solidão que é acentuada nas madrugadas de lua encoberta, em que o rio está completamente escondido nas sombras. Na penumbra pela qual passa uma das figuras mais intrigantes e obscuras da metrópole.

Desconhecido pela grande maioria da população, negado e chamado de lenda pela prefeitura, e segredo entre os funcionários das entidades que trabalham em vão para despoluir o rio, um ser de aparência incomum passa por aquelas águas, sempre nas noites mais escuras do ano. Passa silencioso, remando uma antiga canoa indígena. Algo um tanto peculiar para um rio poluído como é o Rio Pinheiros - um rio morto.

Esse canoeiro do Rio Pinheiros - não raramente - é confundido com os mendigos ou catadores de lixo, que arriscam suas vidas atrás de garrafas pet no rio. Poucas pessoas o viram e conseguem descrevê-lo com exatidão, em vista da total escuridão, caligem, e clima oculto do encontro. Um encontro um tanto esparso, em vista do pouco interesse das pessoas no rio em noites sem lua.

Os relatos mais acurados - de algumas poucas pessoas - o descrevem como um homem de pele escura e cabelos longos, magro, e com mais de dois metros de altura. Dizem que rema uma canoa de madeira crua, sem nenhum tipo de pintura ou decoração. O homem rema em pé, e está sempre completamente nu, salvo por uma pintura corporal vermelha, que se confunde com a cor escura de sua pele. A pintura começa entre o umbigo e o peito, e preenche seus braços e sua cabeça completamente em vermelho. Presa à ponta superior de seu remo, há uma cabaça seca, decorada com poucas penas amarelas. As raras pessoas que dizem já terem visto seus olhos, relatam que são olhos completamente brancos e sem pupila. Brilhantes como pérolas. Entretanto, todos que dizem tê-lo feito, afirmam veementemente que ele não é cego. Pelo contrário, parece poder ver mais do que os olhos comuns conseguem.

Alguns especialistas em história e cultura nacional, quando consultados sobre o assunto há poucos anos, chegaram - por incrível que pareça - a uma conclusão comum. Pela descrição da aparência física e da pintura corporal vermelha na parte superior do corpo, afirmaram tratar-se de um xamã – ou pajé – Mbyá-Guarani ou Nhandevas-Guarani. Mas, a identificação crucial como xamã foi feita pela cabaça seca com penas amarelas, presa ao topo de seu remo. Essa cabaça seca – disseram - é na verdade um maracá, tradicional chocalho indígena utilizado em festas e cerimônias religiosas. Os olhos totalmente brancos não tiveram explicação, entretanto. Disseram ser possível que fosse alguma doença ligada à cegueira, apesar dos relatos adversos. Ao finalizarem a análise dos relatos, todos especialistas também entraram em consenso sobre outra coisa: um xamã de associação Guarani remando no Rio Pinheiros em tempos atuais, durante madrugadas de lua encoberta, não era nada mais do que uma lenda ou crendice popular.

No dia em que o vi, eu estava sobre a ponte Santo Dias da Silva, e eram duas horas da manhã de uma quinta-feira do mês de julho. Ano corrente. Não costumo prestar atenção ao rio, ainda mais numa hora dessas, apressado para chegar em casa. Mas, ao olhar além da grade que separa a calçada da queda ao rio, o que vi na escuridão foi um vulto deslizando exatamente abaixo de mim - próximo à margem direita – seguindo o fluxo natural do rio no sentido centro. A noite escura não permitiu que eu visse nada além de sua sombra. Quando os poucos carros que passavam pela ponte sumiram na neblina, e a noite ficou em total silêncio, pude escutar o som de um chocalho. O maracá. Tocado em um ritmo lento, porém mais acelerado do que as remadas, era como se o condutor da canoa não estivesse simplesmente remando e tocando, e sim ritmando minuciosamente aquela passagem como num ritual. Um ritual soturno e hipnótico. Duas palavras chegaram fracas aos meus ouvidos, trazidas pelo vento, logo antes de duas motos passarem barulhentas pela ponte: ‘eju ápe’.

Senti meu corpo gelar mais ainda na noite fria, quando olhei para a margem do rio, e vi capivaras acompanhando a canoa em um enorme bando, completamente atentas àquela sombra de estatura alta que passava na escuridão. Já havia visto dezenas de capivaras às margens do Rio Pinheiros, mas nunca havia visto tamanha quantidade delas juntas. E de forma tão uniforme e organizada, hipnotizadas pelo fraco som do maracá. A grande maioria era de animais adultos, mas havia alguns filhotes também. Andavam como uma gigantesca massa viva e marrom-brilhante - entre o rio e os trilhos do trem - cobrindo completamente a ciclofaixa vermelha e a grama de verde apagado pela noite.

Apressei meus passos sobre a ponte, sobressaltado com aquela visão. E aquele frio que havia gelado o meu corpo há alguns segundos, simplesmente despareceu. Não passou regularmente, aquecido pelo movimento rápido das minhas pernas, ou ao sair da linha do vento, mas de uma vez só. Repentinamente. Decidi apertar o ritmo da caminhada ainda mais, sem olhar para trás, e, ao chegar em casa, guardei aquela experiência somente para mim.

Algum tempo depois, enquanto fazia pesquisas na internet, descobri um estudo de 1988 sobre uma tribo Guarani que viveu na região da Serra do Mar - mais especificamente no norte do estado de São Paulo - e que migrou do interior em direção ao litoral em uma busca pela Terra sem Mal (Yvi Mara Ey). Essa tribo, já extinta, acreditava que as almas dos humanos cujas vidas terminavam de forma violenta, atordoadas ao não encontrarem escape do plano terreno, reencarnavam em corpos de animais. E, antigamente, para evitar que isso ocorresse, os índios mortos em batalha - ou de qualquer outra forma violenta - eram enterrados próximos a um rio, de forma que suas almas pudessem escapar pelas águas subterrâneas. O rio era uma passagem sagrada, que libertava essas almas torturadas para seguirem seus caminhos além-terra.

O que flutua no Rio Pinheiros, em São Paulo, no ano corrente, nas noites em que a escuridão quase não permite a visão, não é somente um homem remando uma canoa. O misterioso índio-xamã que rema sua canoa oculto pelas sombras, vindo de algum lugar onde provavelmente vive recluso como ermitão, ou então em um quilombo ou tribo perdida na imensidão de 315.000 hectares da mata atlântica, atende a um propósito. Ele vem - talvez por um fino rio ligado à Represa Guarapiranga ou Billings - atender a um chamado tão antigo quanto a própria vida humana. Pois ali, naquele frio que repentinamente gelou meu corpo naquela madrugada de julho, envolto na neblina da ponte Santo Dias da Silva, estavam as almas de motociclistas atropelados, crianças assassinadas, e suicidas, entre outras pobres almas acidentadas que ainda ecoavam o som das sirenes atrasadas.

Busquei mais respostas. Os índios da aldeia Krukutu, localizada no extremo sul do bairro de Parelheiros, também na região da Serra do Mar – e que tem associação Guarani Nhe’e Porã -, quando questionados sobre o assunto, disseram desconhecer a questão de qualquer pajé ou xamã. Mas a cacique, uma senhora com seus oitenta anos de idade, explicou num tom sério e honesto que o rio é poluído a partir do momento em que entra na cidade, pois é sujo pelas almas de seus moradores. Moradores que não respeitam suas águas sagradas. Segundo ela, a água do rio nasce em reservas indígenas milenares. Emana pura da terra, e se mistura com outras águas enquanto corre pelo leito do Rio Guarapiranga e Rio Grande até formar o Rio Pinheiros. Este, por sua vez, entra na cidade com suas águas ainda límpidas, mas é infectado pela impureza e maldade das almas dos homens brancos, que buscam no rio um caminho para se libertarem. Então suas águas são profanadas e o rio morre, e segue morto até o seu destino final - o Rio Tietê. Por fim, as almas impuras permanecem perdidas às suas margens. Sim, algumas vezes – disse ela, em resposta à minha pergunta - na forma de animais.

A única forma de salvar o rio - complementou a cacique - não é através da prefeitura, nem através de organizações não governamentais. Somente quando o homem branco purificar sua alma, e mostrar o seu respeito às águas sagradas, o ambiente voltará ao seu equilíbrio natural. Então, as almas torturadas da cidade poderão voltar a ser levadas para o outro mundo, como aconteceu por milhares de anos antes da civilização.

Porém, enquanto a cultura da cacique não tem previsão de gerar frutos, continuaremos a ter uma visita noturna rara e imperceptível, nos dias mais escuros do ano. Algo que poucos tiveram ou terão a chance de presenciar, e cuja própria existência continuará obscura à maioria da população. De forma serena, o xamã continuará vindo à cidade no silêncio e escuridão das noites mais negras, e, remando lentamente pelo leito do rio impuro, tocará seu maracá. Olhará demoradamente dentro dos corpos dos animais às margens do Rio Pinheiros, e libertará as almas presas ao campo terreno em corpos de capivara. Pobres almas temerosas, que deixarão seus corpos em sofrimento. Almas que profanaram o rio em suas tentativas de libertação.

É um trabalho milenar, feito na penumbra de uma São Paulo que dorme profundamente; e que quando acorda, nem percebe as almas perdidas que foram salvas durante a madrugada.





A vida é assim;
num dia ravioli,
no outro, nissin.




são paulo é cambalear                                                
         entre uma praça                                                
   e uma ogiva nuclear                                                




Não precisa
Ser tão precisa
A mente
Nos mente
Precisamente






deitou desejando
desesperadamente descanso
daquela dor demente. desabafou:
deixem-me,                       desejo dormir
deixem-me,                           desejo delirar
deixem-me,                            descansar desta
deitem-se,                             desistam disso
deixem-me,                        doente desistir
destilem duas dessas doses dentro
dessa demente doença, tão densa
e definharei dopada



estou em estado de estopim. espero essa
explosão, e encerro enfim essa enfadada
e escrotal
existência
espero, então, entes espantados
encontrarem-se, enterrarem-me
e encerro,
eloquente,
essa espera exaustiva, esse encurralado
encontro, que evitam, evasivos, encarar



                                    assisti
                                assombrado
                           àquela afirmação.
                       antes                   assim,
                   aberta,                       afinal.
               afrontava aquilo. aquela abrupta,
           assustadora apatia, articulada assepsia,
       andava                                            apertada
   ao amor.                                                aceitava.
aquilo ali,                                                  acabaria ali



doze dias depois disso,
descansava demoradamente da
dor. deitada na dada decomposição,
o destino dela.                     deuses deram
o desejo dela:                          doce descanso.
deliciosa data,                          definitivos dias,
deste denso                              e desenfreado
destino. ela                            demorou-se
diante dos deuses, desencarnou dessa
demência, e deitou definitivamente
dentro de deliciosa dádiva






Foram dias desumanos
De enganos, de demoras
Esmolas pelas janelas
Cancelas nos separando
Velhos em pé observando
Gritando à toa, procurando
Conservar todo o absurdo

Dias de torpor e céu ausente
Quando nada é certo e só
Aquilo mesmo é alguma coisa
E fica tudo tão escuro, tão duro
Que por hoje não mais sinto

São nesses dias desumanos
De encontros frios, muito sono,
Computadores piscando,
Janelas trancadas, corações longe
Que ficamos a ponto de perder
Sem querer, nós mesmos




Raramente uso vírgulas
Quase nunca pontos finais
As pessoas pausam, e acabam.
Os poemas jamais




Foi num desses dias, em que abri o armário - usualmente fechado – procurando alguma coisa, e acabei me perdendo.

Tenho minha própria Nárnia.

Nesse dia em particular, queria uma revista, que sabia que havia guardado lá. Mas acabei batendo o olho num pequeno álbum de fotos, daqueles Kodak, de papelão com divisórias plásticas, que vinham com a revelação.

Peguei.

Abri.

Não eram fotos boas. Olhos vermelhos, fotos tremidas, umas fora de foco, outras poucas com cores já meio opacas. E tiradas em momentos totalmente inoportunos, algumas chegando a ser incompreensíveis. Muito contemporâneas até – pensei um tempo depois -, levando em conta as últimas tendências de câmeras vintage e fotos com aparência antiga ‘de filme’.

Ali retratadas, estavam pessoas que eu sempre achei que não haviam mudado nada com o passar dos anos, mas agora, naquelas chapas, pareciam completos estranhos.

Aquelas fotos haviam sido tiradas há doze anos. As datas estavam lá, impressas nos cantos inferiores direitos, em números quadrados e laranjas. Será que estavam certas? Pensei que talvez pudessem ser um pouco mais antigas. Geralmente um filme de 36 poses eu não gastava tão rápido. Às vezes durava quase um ano.

Quando me dei conta disso, naquele exato segundo, percebi que aquilo que eu segurava nas mãos valia ouro. Aquele ‘albinho de foto’ (sic) retratava - em 36 fotografias ou menos - talvez um ano inteiro da minha vida.

Parei de virar as páginas.

Imaginei quantos armários ainda teria na vida, e se o eu-futuro iria guardar e ver novamente aquelas fotos algum dia. Pensei ainda se as pessoas sorrindo nas fotos ainda estariam por perto. E se estariam ainda sorrindo.

Decidi que sim, e guardei de volta o álbum.

Na mesma prateleira do armário, num saquinho, estavam os negativos. Um rolinho - agora aberto – que continha os registros químicos dos momentos da minha vida que achei que mereciam ser registrados através do reflexo da luz.

Quanto tempo será que duram?

Voltei à minha busca pela revista.

Pouco tempo depois, já folheando a revista, pensei - o que as centenas de fotos que tenho no meu computador têm de digitais, afinal? - se comparadas às fotos que eu havia acabado de segurar entre os dedos.




Foram dias tão humanos
Sem planos, sem horas
Senhoras nas janelas
Panelas no fogo brando
Jovens em pé conversando
Versando ideias, procurando
Entender um pouco tudo

Dias de cor e céu transparente
Quando nada é nada e só
Alguma coisa é isso mesmo
E fica tudo tão claro, que paro
E sinto coisas mais simples

São nesses dias tão humanos
De noites quentes, pouco sono,
Colchões e roupas no chão,
Janelas abertas, latidos ao longe
Que ficamos tão perto de ser
Sem querer, nós mesmos




Em 1983
Nasci
E continuei
Cresci
Até um metro
E setenta
Engordei uns
Oitenta
Quilos
Perdi alguns
E cheguei
Aqui

Fiz tudo
Que pude
O que foi
Quase nada
Mas fiz tudo
Que o mundo
Esperava
De mim

Enfim
Não quero
Continuar
E morrer
Sem deixar
Bem claro
O absurdo
Que acho
Tudo

Não me importo
Com nada
Nada
Vejam onde estamos
Nesse planeta
Vagando
No infinito
Por entre outros
No vácuo
De um universo
Que não sabemos
Onde acaba

E essa cidade
Que é
Um trem
Que passa
Cheio de gente
Que passa
Cheia da gente
E não para

Que esperam
De mim?
Que me importe?
Que siga algo,
Acredite?
Mostre os dentes?
Parem com isso
Não esperem
Nada de mim
Nada, enfim

Somente atos
De quem sabe
Que em sessenta
Ou menos anos
Estará morto
E enterrado
Passado

De que vale
Isso tudo?
Esse grande
Absurdo?
Ah, parem
Parem agora
Com essas histórias
De progresso
De regras
De roupas
Status-quo
Costumes
E manuais

Vejam
O mendigo
Que olha
Aquela vitrine
Sabe mais
Do que eu

Ele sabe
Quanto vale
Um minuto
Uma chuva
Uma praça
Eu não sei

Quanto custa
Não é
Quanto vale
Não sei
De nada
Que ele sabe

Então
Contemplo
Com atenção
Talvez aprenda
Algo que não
Seja ilusão
Enfim

Nada dura
E não sabemos
Onde estamos
Nem se somos
Se vivemos
Digo parem
Com isso
Tudo
De uma vez por
Todas

Recomeço aqui
Do zero
Do nada
Não perco tempo
Pois não existe
Não lamento
Só me entorpeço
De vida
E deslumbramento
Pois é o que há
Aqui dentro

No fim
Virá a verdade
Enfim




Os dedos congelam ao guidão. As orelhas azulam no frio da manhã. O vento me abraça por debaixo dos braços, atravessando a blusa de lã.

Seria desagradável, se não fosse perfeito.

Olho pros carros andando metros, distantes centímetros. Enquanto quilômetros de janelas pretas separam motoristas sentindo milímetros.

E de lá de dentro, o asfalto que me cedem é buraco, pedra e poça.

Pra mim é pouco.

Faço espaço. Como quem se espreguiça numa cama sob o lençol preso por todos os lados. Como pés em sapatos apertados.

São Paulo não tem trânsito. São Paulo é trânsito. Mas chega de tratar aqui o trânsito como objeto direto, trânsito é verbo. Transitamos todos. Sábios e tolos.

Nesta manhã em particular, transito no frio e faz sol. E me serve bem esse sol frio. Uma promessa de temperaturas melhores. Às vezes, bastam as promessas. Já me aquecem por dentro, essas.

O orvalho da madrugada desperta o perfume dos eucaliptos. E outras árvores pelo caminho brilham suadas nas calçadas. Às vezes me estendendo uma mão com poucas folhas, e me dando um tapa molhado no braço. Sereno, eu passo.

Chego ao meu destino-endereço. Desço ao estacionamento e da bicicleta. Subo pro trabalho. Quinze andares.

E a vida fica me esperando lá embaixo, presa numa grade.

São oito da manhã, e já é tarde.





o silêncio mata o som
         sem dó e sem bemol
o som mata o silêncio
                   lá
         numa chacina em sol