“Mas que grande pouca vergonha!” - exclamava o doutor Cícero Ramos por debaixo de seu bigode preto, enquanto abria caminho pelo meio da multidão de mulheres - e de homens vestidos de mulher - que seguiam o bloco carnavalesco do Zé Maria no centro da cidade. O doutor considerava-se um intelectual, e achava que aquele cantar e dançar embriagado que se dava nos quatro dias de carnaval, nada mais era do que uma grande bobagem. “Viadagem! Putaria!” - resmungava a todos que o pudessem ouvir, enquanto andava a passos largos em direção à entrada da estação de trem. Usava roupas sóbrias dignas de um defunto: terno preto, camisa branca, sapato preto de sola gasta, e uma gravata azul escura tão apertada que precisaria afrouxá-la caso quisesse virar a cabeça por algum motivo. Não que as mulheres dançando cobertas de purpurina, confetes e serpentina, pudessem de alguma forma chamar-lhe a atenção. O doutor era um homem casado sob os olhos de Deus desde que se lembra como gente.
            
“Trabalhar esses putos não querem!” - disse ao segurança da estação, que se surpreendeu com tal afirmação num dia de feriado nacional. O doutor Cícero não acreditava nessas bobagens de feriados e dias de descanso. Acreditava sim, que o trabalho era a locomotiva do país, e trabalhava aos sábados, domingos e feriados, sempre com um sorriso no rosto e se sentindo gratificado pela atividade que exercia: era advogado. Como advogado, lia e relia tudo o quanto era lei e artigo, e os seguia ao pé da letra, sem margem para nenhum tipo de interpretação. “A lei é a lei” - dizia a seus filhos, que mal começavam a dar os seus primeiros passos. “Se não houvesse lei, viveríamos numa balbúrdia sem tamanho! Vejam vocês, a desordem pela qual passei hoje na rua, voltando de um árduo dia de trabalho” – dizia a seu filho mais novo, que escutava atento enrolado em sua fralda – “mulheres dançando lascivamente, homens bebendo descontroladamente, música ensurdecedora, e o pior: aquelas marchinhas - todas de duplo sentido - sendo cantadas por meninos e meninas de idade ginasial!”. A esposa de doutor Cícero - respeitável e virginal dona-de-casa - escutava da cozinha os resmungos do marido e concordava com tudo. “Lembra-se de Saulo Batista, querida?” – ele perguntou a ela, sem esperar resposta - “Estava lá dançando no meio do povo, embriagado e vestido de mulher. Imagine só, que quando comecei a Faculdade de Direito, éramos colegas. Depois o malandro largou os estudos, e foi dedicar-se à maracutaias junto ao tio. Nem na igreja apareceu mais, pecador duma figa!”.

De fato, no exato momento em que doutor Cícero o crucificava, Saulo Batista dançava embriagado pelo terceiro dia seguido, atrás do pequeno caminhão encarregado de levar a banda de marchinhas. No primeiro dia de carnaval, fora vestido de branco, o que achou adequado para seguir o Bloco do Ovo. No segundo dia, aproveitou a fantasia de pirata para beber seis doses de Rum antes do meio-dia. E, finalmente, na Terça-Feira Gorda vestiu-se de mulher – com direito a maquiagem e tudo – e foi dançar no bloco do Zé Maria no centro da cidade. Saulo nem percebera o doutor Cícero - seu antigo colega de faculdade - atravessar o bloco naquele fim de tarde, pois estava de conversa com uma morena de pernas longas, sorriso largo e fantasia de enfermeira. Ele praticamente não pregava os olhos durante o carnaval inteiro. Da sexta-feira à Quarta-Feira de Cinzas, seguia direto na rua festejando, com direito somente a algumas paradas para tomar um drink com os amigos e jogar o sagrado carteado.

O carteado era algo muito importante na vida de Saulo. Talvez a única coisa mais importante que as festas, as mulheres e a bebida. Desde menino, ele tinha aprendido com o tio as técnicas do pôquer, e frequentava bares e casas clandestinas de jogo para tentar ganhar algum dinheiro. No colegial, já tinha seu próprio negócio de tráfico de maços de cigarro na escola, e vendia bilhetes de loteria falsificados para os professores. Quando entrou na faculdade, já era conhecido pela cidade inteira - ou pelo menos, pelo submundo dela - e tinha fama de malandro bom pagador, o que o ajudou a financiar diversos negócios lícitos e ilícitos. Resolveu largar os estudos após sair da prisão, onde ficara preso para prestar esclarecimentos sobre um negócio de bingo eletrônico de seu tio. Após esse incidente, dedicou-se somente ao limpo e honesto negócio dos leilões de imóveis. O tempo livre que lhe sobrava, usava para o jogo – o que já incluía, além do carteado, as brigas de galo -, para as festas, as mulheres, e as bebedeiras.

O doutor Cícero, por sua vez, não bebia e prezava por uma vida saudável e sem exageros. Talvez por isso a comoção da cidade ao saber de sua morte em plena Terça-Feira Gorda de carnaval. “Como assim, morreu?” - perguntou sua sogra ao ser informada pela filha em prantos – “O homem nem vivia!”. O médico veio às pressas, e constatou que o incólume homem havia morrido engasgado. “Uma castanha de caju na goela. É por essas e outras que eu sempre janto com uma cervejinha ao lado, pra descer a comida.” – disse. “Foi aquela gravata apertada” – disse um vizinho folião que espreitava pela janela – “Pelo menos o puto já está vestido pro enterro”. O velório foi um grande fiasco. Em pleno carnaval, apareceram somente alguns parentes por mera obrigação, e alguns membros da igreja que vieram para confortar a esposa – agora, viúva. O caixão com o corpo ficou na casa até a Quarta-Feira de Cinzas, visto que o coveiro e o administrador do cemitério se encontravam no baile e não era possível tirá-los de lá. No momento em que o padre chegou à casa para fazer as últimas orações ao finado, no final da tarde, um bloco passava na rua a cantar: “Pode me faltar o amor / Há, há, há, há! / Isto até acho graça / Só não quero que me falte / A danada da cachaça!”. A essa altura, se o finado doutor estivesse vivo, já estaria resmungando a torto e a direito. Mas o homem já estava noutra.

Após o engasgue fatal, que o fez cair de cara na mesa, doutor Cícero levantou-se e viu o próprio corpo morto ali sobre a toalha de estampa florida. Pela porta da cozinha, viu que a esposa continuava a lavar a louça em silêncio, e que seus filhos – de demasiada pouca idade para entender o que se passava - ignoravam a fatalidade. Ele tentou falar, mas a voz não saiu, e de súbito, sentiu uma tontura forte e seus olhos foram tomados por uma claridade cirúrgica. Aquilo durou alguns segundos, e, quando voltou a enxergar e retomou o equilíbrio, não estava mais em sua sala de jantar. Sabia de alguma forma que estava em sua casa, mas não estava mais sentado à frente de seu filho e de seu prato de jantar. No lugar do filho, havia um crupiê usando um colete vermelho, e no lugar do prato, uma roleta. O crupiê indicou o fim das apostas – somente doutor Cícero estava à mesa – e girou a roleta. A bolinha girou e girou, e antes que a roleta parasse completamente, caiu no número 19. Uma multidão atrás dele explodiu em gritos de alegria, e, quando ele se virou assustado, viu um largo salão de baile repleto de mesas de jogo, por onde inúmeros garçons de bigode fino e gravata borboleta passavam com bandejas de bebidas, e mulheres para todos os gostos – altas, gordas, morenas, negras, magras, loiras, baixas, orientais – desfilavam em trajes ínfimos por entre tipos malandros e foliões.

O crupiê então lhe empurrou uma montanha de fichas pretas com um rodinho, e deu uma piscadela para o doutor: “Bem vindo!”. Desconcertado, o doutor se preparava para perguntar onde estava, quando uma banda de fanfarra irrompeu no salão com trompetes, tubas, e tambores, e todos começaram a dançar. O crupiê, notando seu desconforto, indicou lhe uma porta que ele reconheceu como sendo de sua cozinha, e nela entrou. Sua cozinha, ao contrário da sala de jantar, continuava idêntica. Salvo pelo fato de sua esposa não estar debruçada sobre a pia, e uma dezena de músicos, poetas e vagabundos em geral estarem a se revezar para clamar sonetos, dodecassílabos, e redondilhas pelos cantos, entre um copo de uísque e outro. Ao notarem a presença do doutor no sarau clandestino, todos o cumprimentaram efusivamente com brados de que proclamasse um de seus belos poemas. O doutor - que quando em vida sempre tivera as artes como perda de tempo e inutilidade - como por força sobrenatural, teve sua cabeça inundada por versos, métricas, ritmos e cores. E, pela primeira vez na vida – neste caso específico, morte – teve vontade de proclamar um poema, o que fez ante olhares emocionados, que logo se converteram em altos aplausos. Por dentro, porém, o doutor não entendia e repudiava aquilo tudo.

Saiu em direção à porta que dava para o seu quintal, mas ali não havia mais quintal, e sim outro salão com um balcão longo que circundava toda a sua volta, e detrás do qual intercalavam-se barmans e máquinas de chopp. No centro, haviam duas dúzias de mesas de sinuca. Doutor Cícero se aproximou do balcão e sentou em uma das banquetas. Ali a música era mais baixa, e as pessoas pareciam mais calmas, o que possibilitou a comunicação com o barman à sua frente: “Amigo, onde eu estou exatamente?”. O barman se aproximou e virou o cardápio – uma página encapada em plástico duro que estava sobre a mesa – para revelar o nome do bar em seu verso: ‘Éden’. “Pode relaxar, senhor!” – disse sorrindo – “Tome umas bramotas geladas, você merece!”. O barman abriu uma geladeira onde havia inúmeros rótulos de cerveja, olhou por algum tempo, pegou uma, e serviu ao doutor em uma taça gelada. “Isso não pode ser o céu! E essas pessoas bebendo cachaça, jogando dados e vadiando pelos cantos? E essa música profana, as mulheres trajadas como prostitutas, o dinheiro fácil? Só pode ser o Inferno! Eu fiz algo de errado?” – doutor Cícero disparou enquanto afastava de si a taça de cerveja – “Onde está Deus?”.

Um silêncio fez-se na sala, exceto por um bêbado que cantava num canto usando um socador de caipirinha como microfone. “A que Deus você se refere?” – perguntou o barman - “Aqui temos um sistema rotatório de atividades de liderança, e todas as decisões são tomadas em conjunto por uma comitiva organizada, onde todos tem o mesmo poder de decisão”. Um confuso doutor Cícero reformulou a pergunta: “Então, quem foi o responsável por me enviar pra cá?”. “Você mesmo, oras! Veja bem, senhor: aqui não tem nenhum líder, ninguém manda em ninguém, ninguém é responsável pelo destino de ninguém. Se você está aqui, foi resultado de suas próprias ações. Você merece, tome aqui essa gelada!”. “Eu não quero nada disso” – disse o doutor, contrariado – “Não é assim que me disseram que funciona. Cadê as harpas, cadê as nuvens?”. “Tem um clube de jazz logo ali, e uma charutaria logo ao lado. Serve?” – perguntou o barman. O sangue do doutor já estava em ponto de ebulição, mas ele fitou o barman por alguns segundos, e viu que ele não estava de brincadeira. Seu semblante parecia realmente de alguém preocupado em ajudar. “Quanto tempo será que preciso ficar nesta espelunca?” – pensou em voz alta. O barman apontou novamente para o cardápio, e doutor Cícero leu com mais calma o nome completo do bar: ‘Éden – Drinks por toda a eternidade’. Ele pegou a taça de cerveja e deu um gole. Era boa.

Descobrindo suas crenças serem todas farsas, o doutor tomou naquela noite pela primeira vez na vida – retifico novamente: morte - um porre. Bebeu seis cervejas antes de deixar o bar acompanhado pelo barman, para irem juntos às corridas de cavalos, onde multiplicou o valor que ganhara de fichas pretas na mesa de roleta ao chegar. Apostou num cavalo indicado por um malandro com o qual dividira uma garrafa de uísque antes de entrar no jóquei. O malando vivia por ali a vender palpites de apostas, e contara que o tal cavalo era um azarão, mas que havia um boato de que correria como um louco aquela noite. E de fato o fez, levando os espectadores ao êxtase quando - na última volta - foi da penúltima à primeira posição, como que possuído por uma força sobrenatural. A banca de apostas quase foi à falência: era uma probabilidade de cem pra um. Em comemoração, seguiram o doutor, o barman e o malandro para o grande salão de baile, onde dançaram ensandecidamente enquanto pagavam rodadas de uísque para os poetas e músicos que vinham da cozinha juntar-se à festa, e recebiam beijos e carinhos das mulheres cobertas de purpurina que se derretiam com o trio dançante. No ápice dos festejos, o mesmo crupiê de colete vermelho que o havia recepcionado apareceu, e pelo meio do solo de cavaquinho, disse: “Senhor, houve um engano”.

Doutor Cícero desconfiara de tudo desde o início, é claro, mas não imaginava a explicação que seria dada a seguir pelo crupiê, num canto mais vazio da cozinha: ”Doutor, não era o senhor que deveria ter morrido hoje, foi tudo um grande equívoco. Este não é o seu céu. O seu céu ainda nem foi planejado. Este céu pertence a um tal de Saulo Batista”. O doutor sentia um misto de alívio e tristeza, enquanto o crupiê lhe explicava os procedimentos a serem seguidos para corrigir o desentendimento. “Pedimos desculpas pelo incômodo,” – disse o crupiê – “mas nessa época de carnaval na terra, nossa equipe acaba se confundindo. Tudo será resolvido em poucos minutos”. Antes que o doutor pudesse dizer ou pensar qualquer coisa, uma tontura o levou pelo meio de uma luz alva de volta ao seu corpo, que deitava num caixão em sua sala de estar. Levantou-se e viu a sala à sua volta vazia, exceto por sua esposa que dormia no sofá. “Putos!” – pensou - “Nem aqueles que chamo de amigos me vieram fazer a sentinela fúnebre!”.

Olhou pela janela a rua quieta da manhã de Quarta-Feira de Cinzas, e sentiu a obrigação de ir ter com Saulo Batista, para lhe precaver de sua morte. Largou a esposa dormindo, e tomou a rua à procura do futuro falecido. Caminhava pensando no que ocorrera aquela noite, e, apesar do curto tempo que passara como intruso no céu de Saulo, lembrava com saudosismo das figuras que conhecera, talvez pelo fato de saber que nunca os veria novamente. Junto à crescente empatia que sentia por seu ex-colega de faculdade, crescia em doutor Cícero o medo do que lhe esperava após sua morte, já que o barman lhe explicara que eram suas atitudes terrenas que determinariam sua eternidade. Após andar muito, já estava quase desistindo de encontrar Saulo. Foi quando o viu - através do vidro - sentado sozinho em uma lanchonete, tomando uma cerveja. Entrou e sentou-se a duas cadeiras de distância dele, que reconheceu a presença do doutor com um “Bom dia!” e um aceno de cabeça. O carnaval havia acabado há poucas horas, e o semblante de Saulo lembrava o de uma criança ao final da festa de aniversário, quando só restam bexigas murchas e metade dum bolo destroçado sobre a mesa. Doutor Cícero, sentado ali, no momento crucial, começava a pensar nas consequências de abrir o bico e contar tudo. Foi então ao banheiro lavar as mãos. Pensou que, se Saulo ainda demorasse alguns dias a morrer, e contasse aos quatro ventos da ‘profecia de doutor Cícero’, ele acabaria como suspeito da morte do veterano folião. “De que adianta, enfim, tentar impedir o destino?” – pensou enquanto secava as mãos, e complementou em voz alta: “E que destino!”. Por fim, escutou um baque e um grito vindo de dentro da lanchonete, e, sem nenhum tipo de surpresa, saiu para encontrar Saulo Batista com a cara enfiada na mesa, entre uma cerveja e um pote de castanha de caju.

Para evitar um linchamento público, doutor Cícero foi obrigado a deixar a cidade no dia seguinte ao funeral. O jornal local estampara - na primeira página - uma foto do enterro em que aparecia, com o texto: “O evento da morte de Saulo Batista foi chorado por toda a cidade com pesar. Família e amigos do ilustre morador lamentaram seu falecimento. Exceto por outro ilustre morador - doutor Cícero Ramos - que permaneceu com um largo sorriso no rosto, desde o velório até o momento em que baixaram o caixão”.








Um desespero amarelo toma novamente
O ar de toneladas que presume o desastre
Um som estridente explode por todo lado
Um trem come o asfalto vindo descarrilado

Prestes a tombar no meio da cidade vazia
Prestes a sair no jornal e acabar com o dia
Deixara os trilhos que sempre o prenderam
Pra me atropelar nesse pastoso fim de tarde

O sol entra em meus olhos e abaixo o rosto
Quando o levanto então não vejo mais trem
Porém sinto o tremor da locomotiva no ladrilho
E percebo que sou eu: brutalmente descarrilo









Tomou banho meia hora
Jogou a toalha no chão
Acabou com o sabonete
Deitou molhada no colchão

Reclamou dos meus discos
Chutou-me enquanto dormia
Acabou com o leite gelado
Entupiu um dos ralos da pia

Quebrou a perna da cama
Desregulou o despertador
Atrasou-me para o trabalho
Quase explodiu o secador

Emaranhou todo o lençol
Comeu minha última maçã
Tirou meus livros de ordem
Espero que volte amanhã









Só me interessa o que não sei
Não acredito no passado
Todo aqui; emaranhado.
O que será
                  já sei
O que escrevo
                        já sabe
Some interesse do que já sou

Já sou(be)







um dia acordou sobressaltado. não mais sabia
se os olhos ainda viam. sem sentir o coração bater, não sentia dor,
    nem medo, nem nada. olhava para o criado mudo, mas não escutava o despertador.
 levantou o corpo, apoiado nas mãos sem músculos, finos gravetos que afundaram na cama.
a escuridão às vezes engana, mas sentiu que não era seu corpo que levantava naquela segunda-feira.
sua mente não se lembrava de como era estar vivo. não sentia nada a não ser um torpor, uma aflição cega
que vinha do fato de que não fazia diferença se tivesse ou não levantado, salvo por lhe descontarem o salário.
conseguiu ficar de pé, mas não mantinha o equilíbrio. na escuridão latente, cambaleou e deu um passo à frente.
acendeu a luz e se viu no reflexo da janela fechada – era ele mesmo ali – mas algo lhe faltava: carne, corpo, órgãos
vitais, onde os havia deixado? tinha que sair em duas horas, tinha uma rotina para cumprir, e não iria naquele estado.
olhou pro monte de ossos que virara, e não sabia se aquilo era sonho ou realidade, mas já estava ficando tarde. e então
ele pensou em suas obrigações. pegou a roupa na cadeira. nem morto ele estava, só virara uma caveira. bateu três vezes
na madeira. que aquilo acabasse. era um grande absurdo, já tinha acordado de muitas formas, mas aquilo superava tudo.
botou a sua                                                     calça, mas o cinto  não fechou                                                     na sua cintura.
os sapatos,                                                         a mesma coisa. não ficavam                                                         em seus pés.
improvisou                                                       de todo jeito, cortou metros                                                         de atadura,
enrolou no                                               corpo inteiro. os ossos ganharam forma                                               e finalmente
conseguiu                                          botar as roupas todas. só não conseguiu mudar                                            o seu rosto.
com desgosto                                viu no espelho, ainda era caveira. mas se sentia bem,                                       e ignorou.
saiu pela porta                               tentando conter o som dos ossos que batiam, a cada                                passo sacudiam,
sob a roupa larga                         e desajeitada. ele era um esqueleto, mas andava com                              muita discrição.
pensou que podia não ser nada. era coisa da sua cabeça, e,          após sua rotina diária, provavelmente já estaria normal
e cheio de carne, e o mais importante, seus órgãos vitais.           sem o cérebro, acreditava ele, éramos como animais.
chegou enfim ao seu escritório. entrou despercebido.            ficaria só lá hoje, sem sair, pois podia ser despedido.
se seu chefe percebesse que era um cadáver                          ambulante, se visse seu semblante, sem olhos,
sem nariz, e sem lábios, antes de gritar,                         lhe demitiria com justa causa num instante.
a secretária forçou a porta, tentando                       em vão entrar, pois ele a havia trancado,
e quando tentou gritar para ela           que             hoje não queria ser importunado,
a voz não saiu. saiu um grunhido     tão     estridente, de terror dantesco, que
parecia com latidos de cães abafados pelo som de móveis sendo arrastados.
sentou no canto, pensando se poderia falar com alguém, e como falar.
não havia ninguém com quem tivesse coragem de assim conversar.
aquilo havia durado muito tempo, precisava receber tratamento.
                                                                                                        não        tinha        muito        como         sair       dali,       nem
                                                                                                         como    ficar,        afinal          não         era       mais      gente
                                                                                                         . era      um          totem          de          osso      com     dente.
                                                                                                                                                                                                
                                                                                                             tal       qual        era,      não       tava        nada         bom.
                                                                                                              daí,     por       baixo      da       porta         ele           viu
                                                                                                              uma    carta       que       ali      entrou    muito      sutil.
ele abriu e leu. a carta dizia em uma linha: amo você.
não precisou ler de novo para sentir o peito inchar.
seu corpo esquentou. era a letra de sua secretária.
o seu sangue voltou, e aquela situação precária,
com aquele ato, finalmente acabou.













O céu fica cada vez menor em São Paulo - pensei, enquanto andava pela Rua Álvares Penteado na sombra fria dos prédios. Olhava pra cima, esperando ver o sol daquela tarde de verão, que aparecia somente como um reflexo no vidro das janelas fechadas. Na esquina da Rua da Quitanda - em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil - ele finalmente apareceu inteiro no céu, porém irradiava em somente um reduzido pedaço do chão. Imaginei como devia estar um calor agradável no topo daqueles prédios - em comparação ao frio no cânion que se formava entre eles -, e onde eu caminhava. Ao quase tropeçar numa tampa de bueiro solta, tornei a voltar minha atenção à calçada, e apertei o passo para chegar ao meu destino: um bar próximo ao Pátio do Colégio. Eu havia descido do ônibus no final da Avenida 9 de Julho, e de lá seguia a pé pelo centro antigo, confiando no meu instinto para achar o lugar.

No Pátio do Colégio – apesar de ser domingo -, um pequeno grupo de estudantes do ensino fundamental fazia fila junto a duas jovens professoras para tocar o sino preso ao arco no canto do pátio. Pela primeira vez reparei na gravação do sino: O som do século XXI. PAX. Natal 2000. Murmurei isso baixinho enquanto lia, e um policial passou ao meu lado em direção à unidade móvel da polícia militar, parada do lado oposto da rua. Um homem de aparência macilenta que dormia enrolado num cobertor velho no chão - ao lado do monumento da Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo - levantou o tronco repentinamente. Olhou o movimento à sua volta: as crianças, as professoras, o policial, e eu; e então voltou a deitar-se. Poucos perceberam seu movimento, pois ele não era o único deitado ali no chão - onde, descobri depois, fora a prefeitura de São Paulo de 1765 a 1912. Pelo menos outras quinze pessoas dormiam - ou tentavam fazê-lo - ali.

Eu sabia que o meu destino estava a poucos metros, então dei uma volta pela calçada oposta ao pátio para ver se localizava o tal bar numa das ruas adjacentes. Enquanto fazia isso, concluía meu pensamento de que muito pouco havia mudado ali - da catequização forçada dos índios que ocorrera a quatrocentos e cinquenta anos, até os dias de hoje. Digeri, em silêncio, o absurdo de que a maior evolução nesse período foi cobrir tudo de concreto, sem que nada na superfície tivesse sofrido uma mudança concreta de fato. O marco inicial da cidade de São Paulo – pensei por fim - representava bem essa cidade de paradoxos.

Cheguei ao bar que procurava, enfim, e, depois de algumas horas de conversas gritadas por sobre a mesa, copos de cerveja gelada, e calor humano, eu estava novamente caminhando sozinho no frio da rua. Ofereceram-me uma carona, que por algum motivo não aceitei. Pensei que seria fácil pegar um ônibus na Avenida 23 de Maio, se eu atravessasse a Praça da Sé e chegasse próximo à Liberdade. Mas acabei preso às ruas do centro, andando entorpecido e em círculos por caminhos que desconhecia. Não sabia onde tinha errado, mas quando comecei a ficar preocupado, cheguei novamente ao Pátio do Colégio. Àquela hora, no começo da noite, o pátio já se encontrava iluminado, e era um lugar realmente bonito sob a luz de amarelo âmbar. Um casal - de chineses, eu presumi - tirava fotos e sorriu pra mim quando eu passei. A essa altura eu já tinha decidido que faria o mesmo caminho da ida, já que não tinha a competência necessária pra andar cinco quadras sem me perder.

Vi-me então andando novamente na Rua Álvares Penteado, mas dessa vez - no começo da noite, e com algumas cervejas na cabeça - a rua parecia ter voltado no tempo. As lojas de departamento já estavam fechadas, e os detalhes das fachadas iluminadas dos prédios antigos saltavam aos olhos. Os sacos de lixo na rua brilhavam cobertos de uma fina garoa, e um senhor de idade me ultrapassou pela esquerda usando um chapéu de feltro verde-escuro e sobretudo marrom. Fiquei feliz de estar ali, caminhando a pé. Um momento daqueles não poderia ocorrer dentro de um automóvel. E, como se alguém soubesse como eu estava me sentindo, completou o cenário ressoando o som de uma gaita baixinho pelo ar. Era um blues. Um blues de Sonny Boy Williamson II - estranhamente reconheci - de um disco do Muddy Waters que eu já havia escutado uma dezena de vezes.

O som da gaita ficava mais claro conforme eu caminhava, e, chegando à esquina do Largo do Café, imaginei que iria encontrar o gaitista num dos bares e restaurantes que se espalham em mesas no meio da rua por lá. Pelo repertório escolhido e a forma de tocar, podia até imaginar um homem velho e negro - de chapéu e terno, talvez - tocando de olhos fechados como era idiossincrático dos bluesmen norte-americanos. Mas aquele som era tão manso e suave, que logo que o barulho das pessoas no Largo do Café aumentou, desapareceu gradativamente - como uma rádio saindo da área de alcance das ondas de transmissão. Olhei à minha volta enquanto passava entre as mesas na rua - procurando a origem do som - e nada. O garçom também não soube me ajudar, disse que não havia mais música naquele horário. Enfim, o blues havia ficado pra trás de mim - na rua que eu acreditava estar completamente vazia - e não no Largo do Café. Pensei em voltar e verificar, mas estava cansado. Segui à esquerda e cheguei ao Vale do Anhangabaú, de onde finalmente voltei pra casa.

Seis meses se passaram desse dia, até que eu voltasse ao centro de São Paulo. Foi no dia 17 de agosto, às dez horas da manhã, quando passei por dentro da Estação da Luz em direção à Praça Júlio Prestes. Eu havia me comprometido a buscar uns ingressos na bilheteria da Sala São Paulo, e, saindo de lá, passei na frente da antiga estação de trem Júlio Prestes, onde atualmente fica a Estação Pinacoteca. Ali, me sentei num dos bancos de concreto - na sombra - pra conferir e guardar os ingressos que eu ainda segurava na mão quando saí da bilheteria. Enquanto fazia isso, o trânsito de carros na Rua Mauá – que estava à minha frente - parou por um instante devido ao semáforo fechado, e eu pude ouvir o som de uma gaita muito baixo - porém muito claro - trazido pelo vento.

Imediatamente me lembrei daquela caminhada noturna próxima ao Largo do Café, de alguns meses antes. Pois novamente era Sonny Boy Williamson II – concluí. Porém, dessa vez, a música não era do Muddy Waters, e sim a autoral Bye Bye Bird. O som vinha sem direção, simplesmente parecia sair do nada, das paredes, do chão; do próprio ar, talvez. Olhei pela janela para dentro da antiga estação, e depois para toda a rua e as janelas dos prédios, mas não encontrei a origem daquele blues. Por mais alguns segundos, o som quente e gordo pairou no ar, até ser destroçado - com a abertura do semáforo - por duas motos seguidas de uma corrente de carros. Permaneci imóvel no banco, aguardando que o semáforo fechasse novamente, o que pareceu levar uma eternidade. Precisava escutar mais um pouco daquele som, descobrir quem o tocava, mas, quando o trânsito finalmente parou novamente, eu já não ouvia mais nada. Inclinei o tronco pra trás, de forma a encostar as costas na parede, e tomei um susto ao ver que havia um cachorro sentado ao meu lado no banco. Eu estava tão compenetrado, que nem havia percebido. Ele me observava atento. Era pequeno, e tinha o pelo todo emaranhado e cinzento, o que parecia uma espécie de camuflagem para a cidade fosca.

Levantei-me pra ir embora, e então em volume alto e claro escutei a introdução de Hoodoo Man - música interpretada na gaita originalmente por Junior Wells. Durou por poucos segundos, assim como a introdução da canção original, mas o som parecia tão próximo, que estremeci. Me virei pro cachorro cinzento, que se virou pra mim, e nos entreolhamos desconfiados. “Essa é a versão do Buddy Guy” - eu disse em voz alta ao cachorro, que, parecia a mim, podia entender. Uma mulher jovem que passava perto de mim abraçou a bolsa contra o peito e apressou o passo. Tomei conhecimento de que parecia loucura, mas voltei a sentar no banco, e fiquei ali mais algum tempo. Tempo suficiente para que o cachorro desistisse e fosse embora, me lançando um último olhar desconfiado.

Tanto tempo se passou após esse segundo evento, que cheguei a apagá-lo completamente da memória. Salvo por algumas vezes em que puxei entre meus discos um de nome Good Morning, Schoolgirl. O vinil de péssima qualidade que comprei há cerca de dez anos num sebo - uma coletânea de gaita blues -, continha a música de Sonny Boy Williamson II que dava nome ao álbum, em uma gravação da época, que infelizmente estava riscada no meio. Aliás, boa parte desse disco estava riscada, o que me obrigava a escutá-lo em pé ao lado do toca discos, para reposicionar a agulha sempre que a mesma começasse a pular. Resisti a jogar esse disco fora por diversas vezes no passado, mas finalmente tive a sensação de que o havia resgatado naquelas condições do sebo por um motivo, e precisava guardá-lo. O disco servia como uma memória daqueles eventos misteriosos ocorridos no centro de São Paulo.

Há cerca de um mês e meio, fui ao centro novamente acompanhado por um velho amigo, e sem motivo específico. Pensei em comer um bauru no Ponto Chic do Largo do Paissandú, e depois ver se a feira de artes da Praça da República continuava ativa. Talvez eu comprasse algo. Era sábado, e eu tinha tido uma pequena desavença com minha namorada. Resolvi então sair de casa um pouco, de forma a fazer com que o tempo atropelasse mais rápido aquele desentendimento efêmero. Eu comentei do ocorrido com meu amigo, enquanto saíamos do Ponto Chic - onde deixamos uma pequena fortuna por quase nada -, e seguimos conversando até a Rua Barão de Itapetininga, onde, desatentos, dobramos para o lado errado. Chegamos - não intencionalmente - ao Viaduto do Chá, ao invés da Praça da República. Continuamos andando e conversando, e, do outro lado do viaduto, parei numa chapelaria e comprei uma boina que vi na vitrine. Curiosamente, fui atendido de forma muito profissional por um garoto de cerca de onze anos, pois, aparentemente, não havia nenhum adulto na loja.

Botei o pé na calçada - com a nova boina já cobrindo o crânio -, e escutei à distância uma versão de Got My Mojo Working tocada num ritmo acelerado e frenético na gaita. Mas dessa vez o som não estava disperso no ar. Ele vinha - quente e gordo - de trás de um grupo de pessoas que estavam a alguns metros de distância, na esquina com o Viaduto. Fiz um sinal com a cabeça para meu amigo - que já havia se adiantado na outra direção -, de que iria até lá conferir a música. Ele não mostrou interesse. Conforme eu andava em direção ao som, ia associando cada vez mais aquele estilo agressivo e encorpado de tocar, com o que eu havia escutado na Rua Álvares Penteado e na Estação Júlio Prestes. Era, sem sombra de dúvidas, o mesmo gaitista. O músico invisível do centro de São Paulo.

Ao chegar perto pude ver por entre as pessoas, sentado em uma cadeira, um homem velho e negro de chapéu e terno, tocando com os olhos fechados. Era o clássico bluesman que eu havia imaginado tocando em meio às mesas do Largo do Café naquela noite em que o escutei. Cada peça de roupa, cada ruga, expressão e fio de cabelo, eram do homem que eu havia visualizado na minha mente ao ouvir o som da gaita. Os pelos do meu corpo se arrepiaram, e por algum motivo me senti como se estivesse vendo um fantasma. Quando o homem parou de tocar, abriu os olhos, e, sem levantar a cabeça, bateu a gaita com os orifícios de sopro pra baixo na sua perna, de forma a tirar a saliva. Pensou por um ou dois segundos, e começou outra música, que me pareceu com James Cotton.

Ele estava no meio da música, quando meu amigo reapareceu ao meu lado segurando algum tipo de eletrônico, porém não consegui prestar atenção no que ele me mostrava nem no que dizia. Em algum momento ele insistiu para irmos embora, mas eu sugeri – sem sair da hipnose que a música me proporcionava - que ele fosse comprar duas latas de cerveja ali perto, e ficássemos por ali mais um pouco. Ele aceitou prontamente, e logo voltou com as cervejas. Assim que acabou a dele, ele se despediu de mim e foi embora - pois tinha um compromisso, disse. Afastei-me um pouco das pessoas, e sentei numa mureta lateral com a lata de cerveja já quente e pelo meio. O dia começava a escurecer lentamente, e as pessoas, como vampiros ao avesso, começavam a voltar às suas casas - ao som de Howlin’ Wolf.

Quando percebeu que não havia mais ninguém o assistindo, o gaitista parou, e permaneceu sentado imóvel por algum tempo. Então ele me percebeu - sentado ali na mureta - com o canto dos olhos. Virou a cabeça na minha direção, e abriu um sorriso de porcelana tão branco que intimidou o começo de noite em São Paulo. Notei que ele não tinha alguns dos dentes laterais, o que explicava a forma não convencional de tocar - ele praticamente enfiava a gaita inteira dentro da boca - causando um grande efeito sonoro e visual à apresentação. Tirou os olhos de mim, e olhou pra caixa da gaita que estava à sua frente, cheia de moedas. Voltou a olhar pra mim e em seguida pra caixa cheia de moedas por mais duas vezes, de forma a frisar suas intenções de forma quase cômica. Havia um misto de calma, ingenuidade e malícia em seus modos - tanto de agir, como de tocar - que era claramente o resultado de um domínio das ruas, além do domínio de sua arte.

Quando me levantei da mureta pra me aproximar, lembrei que não tinha nenhuma moeda na carteira. Somente uma nota de cinquenta reais. Parei na frente dele, absorto no dilema de dar ou não todo dinheiro que tinha em mãos, quando ele falou olhando para o horizonte além da ponte: “I didn’t charge you the two other times”¹. Confuso, botei a nota de cinquenta na caixa da gaita, e no que eu abri a boca para perguntar algo - que nem eu sabia o que era -, as luzes dos postes se acenderam iluminando a rua em um amarelo âmbar - como haviam feito há tempos atrás no Pátio do Colégio. No mesmo instante, o homem colocou a gaita na boca e começou a tocar.


Louisiana is where my town was in                  Louisiana era onde ficava minha cidade
In that place, I was crowned, you see             Veja só, naquele local eu fui coroado
After all, something changed in me                 Afinal, algo mudou em mim
Lost it all to the whirling wind                        Perdi tudo ao turbilhão de vento

:I was born again, six feet deep:                     :Eu renasci a seis pés de profundidade:

After all was swept to the ground                   Após tudo ser varrido ao chão
I found myself walking south                           Me vi caminhando para o sul
Where they don’t get my sound                       Onde não entendem o meu som
And I had to make it underground                   E tive que me virar no subterrâneo

:I was born again, six feet deep:                     :Eu renasci a seis pés de profundidade:

There’s no wind under the street                     Não há vento debaixo da rua
The police don’t get to hassle me                    A polícia não pode me importunar
Where I’m alone, that’s where I’ll be               Onde posso ficar só, é onde vou ficar
Being underground is being free                       Estar subterrâneo é estar livre

:I was born again, six feet deep:                     :Eu renasci a seis pés de profundidade:


Após um longo solo de gaita - que de tão lento e intenso, pareceu alterar o ritmo natural de tudo à minha volta -, o homem tirou a gaita da boca. Novamente ele virou a gaita com os orifícios para baixo e a bateu contra a perna. Não havia ninguém próximo a nós, mas ele fez um sinal para alguém em algum lugar à distância, agachou ao lado da caixa da gaita no chão, e começou a guardar as suas coisas. Perguntei onde ele costumava tocar, como ele sabia que eu já o havia escutado antes, se ele tinha nome, e de quem era aquela última música - cujo autor não identifiquei. Em resposta, ele só riu e continuou a arrumar a caixa da gaita e a guardar o dinheiro. Do meio do nada, apareceu uma moça com uniforme de garçonete - a quem ele deu uma mão cheia de moedas -, e ela levou embora a cadeira sobre a qual ele poucos minutos antes tocara sentado.

“Nice meeting you, sir”² - disse ele, segurando a ponta do chapéu com a mão, e com o mesmo sorriso de porcelana no rosto. Fiz um sinal de reconhecimento com a cabeça, satisfeito - e desapontado ao mesmo tempo, pela falta de respostas -, e fui embora também. Um cachorro pequeno com o pelo cinza todo emaranhado passou por mim, enquanto eu seguia pela frente do Teatro Municipal em direção à Avenida São João. Eu havia parado o carro numa rua próxima, mas acabei perdido nos meus pensamentos, e, quando vi, já estava subindo a escada de acesso ao Viaduto Santa Ifigênia. Havia começado a garoar, bem fino, e as pastilhas que decoram o chão do viaduto formaram uma espécie de espelho d’água sob a luz dos postes. Uma estátua-viva desistiu de sua imobilidade, e saiu correndo em direção a um toldo.

Apoiei o corpo na grade que separa o viaduto da queda sobre a Avenida Prestes Maia, e vi na Praça do Correio - a algumas dezenas de metros de distância - o tal bluesman parado, com sua caixa numa mão e a gaita na outra. Três moças usando vestidos coloridos passaram correndo pela praça, procurando abrigo da garoa. Então, o homem olhou para os lados, e na certeza de estar completamente sozinho, tirou com dificuldade a tampa solta de um bueiro. Sentou-se com as pernas para dentro do mesmo, e logo desapareceu pelo buraco - segurando a gaita presa entre os dentes. Suas mãos reapareceram, e puxaram a tampa até que ela fechasse completamente o bueiro sobre a sua cabeça.




¹ “Eu não te cobrei das outras duas vezes”
² “Foi bom te conhecer, senhor”








Pra olhar a represa,
Melhor um dia quente
Com cheiro de vento.
Pra lembrar o passado,
Um dia frio,
Pássaros voando de lado,
Ondas e velas amarradas,
Onde o vento de outrora
Sopra, e navegam agora
Com velocidade e sem rumo
Corpos molhados
No meu quarto escuro.







Resolveram que era aquilo. Estava doente. 
Então, lhe enfiaram uma colher de remédio 
amargo e quente por entre os dentes. E logo 
lhe cobraram melhoras que não pôde dar, pois 
sentir-se bem e normal, segundo eles, era 
efeito colateral. Os sintomas pioraram, e uma 
ambulância veio berrando pela contramão. 
Caso urgente de internação, nele havia além 
do nervo óptico. E os diplomas na parede e os 
consultórios, todos de terno então, chegaram 
ao diagnóstico. Era irrefutável, disseram cadeiras 
de couro e cachimbos, que concordaram todos 
sem engano: um caso irremediável de ser humano.







a
tradição
frita no brilho
da vitrine do boteco
da quermesse do aeroporto
massa é batata e farinha de trigo
recheio é frango, não mais que isso
o guardanapo engordura os dedos
queima a boca a fornada recente
seu formato de coxa é gota
em óleo quente
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“Foi tudo pro caralho” – disse ela, perguntada sobre como estavam as coisas. Já havia passado pelo estágio da negação, e estava no da raiva agora. Bebia em goles rápidos a caneca de cerveja à sua frente, mais pra se manter ocupada do que pela vontade de beber. Reparei que ela havia mudado a aparência, agora com os cabelos soltos sobre os ombros ao invés da trança tradicional. Também não usava maquiagem, mas tinha os olhos mais bonitos do que se estivesse usando, mais penetráveis e sinceros. Ela disse que tinha lido que era bom esse negócio de mudar o visual. Além disso, não queria ser reconhecida. Fiquei em silêncio esperando que ela falasse algo sobre o que havia acontecido, achando que ela havia se esquecido de que foi ela quem me telefonou de manhã e pediu para lhe buscar no motel de beira de estrada onde havia dormido, para conversarmos. Quando ligou, disse que queria ir a um lugar longe, então dirigi com ela até a cidade vizinha. Ela disse: é melhor mais longe, e acabamos num posto de gasolina numa saída da BR 116. Depois de alguns minutos de silêncio, começou a contar sua versão do que tinha acontecido.

Era junho, e a cidade estava pronta para receber as festividades de São João. Ela havia se prontificado a ajudar na quermesse da igreja local por insistência do bispo, Seu Alcides, pois no ano passado havia feito um ótimo trabalho com as barraquinhas de jogos, que tiveram arrecadação recorde para a paróquia. Ela havia trocado a caixa de areia tradicional da pescaria por uma piscina inflável com água, entre outras ideias das quais o bispo havia gostado muito. A organização naquele ano previa uma festa junina bem maior, agregando duas cidades vizinhas e suas respectivas paróquias. Na manhã da festa, Olívia já tinha tratado de toda a divulgação, havia organizado o recebimento e a montagem das barracas, e terminava de cortar metros e mais metros de bandeirinhas coloridas pra começar a enfeitar o terreno próximo à igreja, onde seria a celebração.

Em pouco tempo, porém com a ajuda de muitos moradores, tudo ficou pronto. Havia três barraquinhas de jogos, onde além da já famosa pescaria, podia se jogar argolas ou acertar uma bola feita de meias velhas em um alvo onde Olívia havia pintado um demônio, ao invés do tradicional palhaço ou pato. O bispo Seu Alcides não havia gostado a princípio, mas deixou que ela fosse adiante com a ideia, e quando viu a barraca cheia de paroquianos vibrando para acertar o diabo algumas horas mais tarde durante a festa, até se arriscou a dar uns arremessos contra o cramunhão. Todo esse capricho que Olívia havia colocado na festa, porém, tinha um objetivo do qual ninguém até o momento tinha conhecimento. As centenas de bandeirinhas esvoaçantes, a fogueira enorme que era quase do tamanho de uma casa e que logo seria acesa, a quadrilha de dança que o jovem padre Romeo, que havia vindo da Itália um ano antes, tinha sido incumbido de coordenar. Tudo era parte de um plano.

Ela estava tranquila quando começou a quermesse, e brincava com as crianças que tentavam subir no pau de sebo. Foi desafiada por elas a tentar, mas estava usando vestido, e se recusou gentilmente a subir. Além do vestido na altura dos joelhos, usava a mesma trança que usava sempre, porém entrelaçada com uma fita vermelha que combinava com a estampa do tal vestido, e que terminava em um laço com uma rosa. Ela havia também pintado sardinhas no rosto, assim como muitas das mulheres presentes na festa. Metade dos homens também havia pintado com carvão o típico bigode caipira, e a outra metade já tinha o tal bigode por opção. No momento em que Olívia descansava um pouco das crianças, e pensava em pegar um quentão na barraca do outro lado da quermesse, um casal de adolescentes lhe parou aos gritos de “Correio elegante! Correio elegante!”, e entregou um papel dobrado em suas mãos. Ela abriu, e leu o escrito no papel, que desdobrado tinha o formato de um coração:

“Confessei-me a Santo Antônio,
confessei que estava amando.
Ele deu-me por penitência
que fosse continuando.”

Olívia reconheceu a letra, e não pôde disfarçar um sorriso. Não pelo versinho manjado, mas pela audácia do escritor. Ela sabia o quanto era arriscado aquele correio elegante, ainda mais naquele dia específico, em que a cidade inteira estava ali na igreja. Os adolescentes cobraram uma resposta dela, e no que ela percebeu que eles não desconfiavam de nada, e nem sabiam originalmente de quem era o correio elegante, disse que em breve responderia. O que não chegou a fazer naquela noite.

Enquanto tomava o quentão, e a tarde se transmutava em noite, ouviu pelos alto-falantes a chamada para a quadrilha. Estremeceu ao ouvir a voz de padre Romeo, que tantas vezes escutara ao pé do ouvido em lugares escondidos, agora ampliada a todos e ao vento. Sabia que em breve estariam juntos, e, a cada minuto que passava, esse tempo encurtava drasticamente. Abriu-se um clarão no meio da quermesse quando acenderam as luzes dos postes, e em cada lado do terreno havia casais se juntando em uma grande roda. Olívia agarrou o braço de Seu Alcides, o bispo, e arrastou-o sem muita contestação para a roda. A dança começou, e tanto ela quanto o padre que falava ao microfone do pequeno palco, por onde os casais passavam de costas, tiveram que se controlar ao trocar olhares furtivos por entre a multidão.

A dança terminou num grande aplauso, e Olívia agradeceu o bispo dobrando o joelho com uma perna atrás da outra e segurando as pontas do vestido, como era de costume fazerem as damas de antigamente. No meio das pessoas que se dispersavam, várias apareceram para lhe agradecer e elogiar pela organização da festa. Uma prima tentou lhe levar pela mão a uma mesa, dizendo que iria apresentá-la a um fazendeiro muito bonito que havia perguntado dela enquanto dançava. Olívia fingiu interesse, mas quando pôde, soltou a mão da prima, e se perdeu no meio da bagunça de pessoas até dar de frente com Romeo, e sua respiração quase parou. Os olhos dele estavam brilhando mais do que o normal, assim como os dela, e bastou uma troca de olhares para que os dois quase explodissem em um entusiasmo delirante. Separaram-se sem se tocar ou trocar palavras. Logo estariam a sós, como estiveram tantas vezes antes, no cemitério atrás da igreja de madrugada, ou no confessionário durante as manhãs sem missa.

O alto-falante voltou a zunir, e a voz que ecoou dessa vez foi a de Seu Alcides, que convidou todos à lateral da igreja para acenderem a monumental fogueira. A cidade toda se apressou a cercar a montanha de madeira, e Olívia fingiu arrumar algo na barraquinha de doces enquanto a quermesse se esvaziava em detrimento da atração maior da noite. Logo que se viu sozinha, correu através do terreno de terra deserto até a frente da igreja. Bateu cinco vezes bem rápido na grande porta de madeira, fez uma pausa, e bateu mais duas vezes. A porta se abriu e ela entrou, dando de frente com Romeo, que tinha um semblante excitado, não somente pelo que haviam planejado, mas também por finalmente estar sozinho com ela. Empurrou-a contra a porta fechada e a beijou desesperadamente passando a mão por todo seu corpo, do pescoço às coxas. Ela se derreteu por um instante, mas então se desvencilhou do beijo e olhou para ele séria. Aquela não era a hora.

Os dois amantes subiram por uma escada lateral até o segundo andar da igreja, onde morava o bispo Seu Alcides, e, enquanto faziam isso, Olívia reparou no grande pano bordado em ouro que havia na parede oposta à nave principal. O pano retratava a famosa imagem de São João Batista batizando Jesus Cristo, e acima do rio onde estavam, entre os dois, havia uma pomba branca que era tida como a manifestação do Espírito Santo na ocasião. Olívia reparou ainda que o quarto do bispo havia sido aberto à força, e as gavetas estavam reviradas. Romeo soltou a mão de Olívia e apontou para o cofre da parede, que ficava atrás da cortina, dizendo: “só falta o cofre”. Ela pegou um pé-de-cabra, que estava apoiado na parede, e golpeou o cofre três vezes. Golpeou-o de forma simultânea à contagem regressiva para acender a fogueira, que era gritada pela multidão lá fora sob a janela, e a poucos metros deles: “um... dois... trêêês!”. O cofre se abriu e lá estava a coleção de joias da família de Seu Alcides, e um bolo de dinheiro que ambos já sabiam que estava guardado ali para a reforma dos salões laterais da igreja. Uma arrecadação feita por toda a cidade por mais de um ano.

Olívia pegou o dinheiro e as joias de uma só vez, e botou dentro da mala que Romeo havia aberto sobre a cama. E dessa vez foi ela quem o agarrou apaixonada, e os dois caíram sobre a inviolada cama de solteiro do bispo. O clarão da fogueira refletiu no teto do quarto, e o som da madeira queimando e gritos de toda a cidade pareciam não encobrir o barulho de seus corações batendo. Estavam possuídos de um amor completamente descontrolado, e iam se entregar aos seus desejos ali mesmo, pela milésima vez, mas com a mesma paixão da primeira, e na situação mais perigosa possível. Foi quando, por entre os próprios suspiros, puderam ouvir uma nova contagem regressiva, e a poucos metros da janela viram um balão subindo muito devagar no ar, e meio de lado. De supetão, o vento empurrou o balão para baixo e para dentro do quarto, como se o movimento houvesse sido calculado. E, sem nem encostar nas arestas da janela, o balão pousou em chamas no meio do quarto onde Romeo e Olívia já estavam seminus em meio ao concubinato sacrílego.

A gritaria sob a janela foi geral. Olívia e Romeo ignoraram completamente o fogo do balão delator, e vestiram-se o mais rápido possível, enquanto fechavam as gavetas, o cofre, voltavam a cortina de volta para o lugar, e jogavam o pé-de-cabra debaixo do armário. Em uma fração de segundos, a porta da igreja se abriu e uma multidão de homens subiu as escadas, para encontrar Olívia segurando uma mala no corredor, e o jovem padre encobrindo as labaredas com um cobertor. Com a ajuda dos outros homens, o fogo foi rapidamente apagado. No meio da confusão, Olívia sumiu, e reapareceu sem a mala. Seu Alcides, por entre a fumaça do fogo que se extinguia, gritou a todos que esperavam à porta de seu quarto: “um viva ao padre Romeo, o herói da noite!”. “Viva!” gritaram todos, enquanto Romeo secava o suor e limpava a fuligem em seu rosto com um pano. Por um segundo, seu olhar o traiu e ele olhou com o canto dos olhos para Olívia, o que foi notado pelo bispo, assim como o fato de que sua paroquiana favorita estava agora sem a fita vermelha e a rosa que tinha no cabelo há poucos minutos atrás.

Como a festa já estava em estado avançado, e, salvo pelas crianças, todos já haviam bebido em conjunto três caldeirões de quentão e quatro de vinho quente, a situação não foi notada por mais ninguém. Todos estavam orgulhosos com a organização da brigada de incêndio improvisada, e atônitos com a velocidade do padre, que havia evitado uma catástrofe. Todos o cumprimentavam, e Olívia também foi envolta pela multidão que a puxava de um lado ao outro fazendo perguntas, e parabenizando-a pela centésima vez pela organização da festa. No meio da confusão de vizinhos e parentes, não puderam se encontrar mais, até que no fim da festa Olívia foi forçada a voltar com sua prima pra casa. E o padre foi seguido de perto pelo bispo desconfiado pelo resto da noite.

“Logo que eu cheguei em casa, me deitei. E quando escutei que todos já dormiam, fugi pela janela e fui pro motel da estrada velha”, disse Olívia pra mim, tomando o último gole da cerveja. "Hoje cedo o bispo deve ter acordado, e se ainda não o fez, pois ficou vigiando o Romeo até dormir, vai encontrar seu carro parado atrás da igreja com a chave no contato e lotado de joias e dinheiro da cidade inteira. Eu e Romeo nos revezamos durante a festa, e pilhamos a cidade toda. Metade da cidade já deve ter reparado a essa altura”. Eu estava escutando-a confessar, completamente perplexo, e minha cerveja já tinha esquentado sob o sol do meio-dia, então tentei consolá-la: “De fato, todos já perceberam os roubos, mas ninguém vai saber que foram vocês. Vocês dois são as últimas pessoas de quem iriam desconfiar. Devem é estar preocupados achando que você foi sequestrada, ou algo do tipo”, eu disse.

“Esqueci de falar,” - ela disse olhando nos meus olhos - “que junto das coisas roubadas, dentro do carro, há uma pasta. E dentro dessa pasta estão duas passagens para Florença, com os nomes Romeo e Olívia escritos nelas. E eu não tive nem tempo de avisar o Romeo disso, então ainda devem estar lá. O único contato que tive com ele depois da confusão do incêndio de ontem, foi uma mensagem de celular em que ele me dizia que não podia continuar com isso, e que estava tudo acabado”. Ela deixou claro que havia tentado ligar a ele de todas as formas possíveis, mas que ele não atendia, e ela estava ficando desesperada imaginando se algo teria acontecido a ele. Nesse momento estava saindo do estágio da raiva e entrando rapidamente no estágio da negociação e diálogo. Pediu: “você precisa me ajudar. Não confio em ninguém dessa cidade, e, muito em breve, ninguém mais confiará em mim”.

Ela estendeu uma das mãos, e colocou um bilhete na mesa à minha frente. Estava dobrado com o nome de seu amante escrito em cima. Pediu que eu o levasse a ele ainda hoje. Era a única coisa que me pediria, disse ela, pois não queria me envolver mais ainda naquela história, que além de criminosa era profana. Senti que o peso que ela sentia vinha mais pela parte da profanidade do que pelos crimes. Eu estava confuso com aquilo, não conseguia conceber que os dois tivessem escondido tudo de todos, e por todo esse tempo. Não entendia o que haviam pensado os dois, só sabia que seriam presos pelos roubos logo que fossem descobertos, e isso era só uma questão de tempo. Mas sabia o porquê de ela ter me chamado. Ela sabia que eu entenderia o amor impossível deles. Então, me senti obrigado a guardar aquele bilhete, e após deixá-la no motel, dirigi de volta à cidade.

Parei meu carro na frente de onde moro, um prédio de quatro andares sem estacionamento. O porteiro estava no gramado, usando luvas de jardinagem, e olhou pra mim com os olhos quase cerrados devido ao sol. “Achei que o senhor estivesse em casa”, falou. Eu disse que não, que iria dar um pulo na igreja pra ver se precisavam de ajuda pra desmontar as coisas da festa. Então ele disse: “que coincidência, o padre Romeo veio aqui há pouco procurando por você. Achava que você estava em casa, então deixei que ele entrasse”. Não era algo comum eu receber visitas, muito menos do padre com o qual só tinha trocado meia dúzia de palavras na vida. Deixei o porteiro com sua jardinagem, e subi correndo até o terceiro andar, onde ficava meu apartamento. A fechadura estava intacta, porém a porta estava destrancada. Senti um frio na espinha quando girei a maçaneta e abri a porta, mas não havia ninguém lá. Eu já desconfiava, e bastou entrar no banheiro para ver que o relógio de ouro do meu avô tinha sumido, além do dinheiro que eu tinha guardado numa caixinha de metal no criado-mudo.

Tranquei a porta e saí correndo em direção à igreja, que ficava a quatro quadras do meu apartamento. A cidade estava mais vazia do que o normal, e a igreja estava de portas fechadas. As barracas da quermesse estavam sendo desmontadas por dois homens com um caminhão, mas as bandeirinhas, os sacos de lixo e tudo o mais ainda estavam lá exatamente como haviam ficado na noite anterior. Um senhor de idade estava sentado na escada da frente da igreja, lendo o jornal, e lhe perguntei da missa. “O bispo disse ainda ontem, que hoje não teria missa” - respondeu. Então empurrei a grande porta de madeira, que pra minha surpresa se abriu com um rangido suave. Subi as escadas laterais, e, enquanto fazia isso, notei que o pano bordado em ouro que representava o batismo de Jesus Cristo por São João Batista, havia desaparecido. Abri a porta do quarto do bispo, e encontrei-o amarrado na cama, e amordaçado com uma fita vermelha com uma rosa na ponta. Afrouxei os nós dos calcanhares e pulsos, e depois os da mordaça, e no mesmo instante veio o grito: “mas que padre filho da puta!”.

Enquanto o bispo praguejava, lembrei-me do bilhete, e o peguei no fundo do meu bolso. Ao abri-lo, estranhei de ver que o papel tinha formato de coração:

“Confessei-me a Santo Antônio,
confessei que estava amando.
Ele me disse que roubasse
e fugisse desse bando.”