Tem
um menino na porta do mercado
Vendendo
salgados
E
é sempre o mesmo menino
O
menino já está marcado
O
menino está na porta do mercado,
Ou
a porta do mercado no menino?
O
menino vende os salgados,
Ou
os salgados vendem o menino?
Pouco
importa;
Sempre
que passo, já está marcado:
Tem
um menino vendendo salgados
Na
porta do mercado
O
menino já está marcado,
Ou
o menino já está mercado?
o caminho
entre a taça e a goela
é tão antigo
quanto o pincel e a tela
tão comum
quanto a capela e o padre
é nesse
caminho que o mundo se apaga
e é no vinho
tinto que o homem esquece
que a vida é
fria, e um bom gole aquece
um brinde
merece, em nome do mesmo
que mata a
sede e embriaga o medo
acelera a
noite e segura a pressa
na fauce regada em fino tinto
entre a uva e o prazer há
um tempo solto, um
nó na
garganta
uma
f
e
r
m
e
n
t
a
ç
ã
o
da existência
humana
Todas
sextas-feiras
Agarram
lembranças
De
mais pacatas danças
De
sextas-feiras passadas
Em
outras semanas
Vagas
Vinde
ó sextas-feiras
Brutas!
Que engolem
Dias
e ruas
E
que vêm como padres
Redimindo
os vira-latas
As
prostitutas
E
os bêbados inveterados
Vinde
ó sextas-feiras
Por
entre trôpegas passadas
Para
carteiros e turistas
Para
empresários,
Paramédicos
Para
moças comportadas
Para
mesas nas calçadas
Arquibancadas
Todas
sextas-feiras
Engrandecem
os poemas
Emudecem
os problemas
De
sextas-feiras passadas
Em
outras semanas
Vagas
Alberto, segurando um tubo de
desodorante e um pacote de pão, esperava na fila comum do supermercado. Uma
senhora ao seu lado tentava convencê-lo, em vão, a usar o caixa-rápido. Mas ele
tinha todo o tempo do mundo entre o meio-dia e a uma hora da tarde. Quase todo
dia era a mesma coisa. Após deglutir o
almoço, punha-se a caminhar até o mercado. Pegava uma ou duas coisas da sua
lista de compras, e ia para a fila do caixa de número seis. Sempre a fila do
caixa de número seis.
Sentada ao lado de um monitor de
computador antigo, enfiada num avental surrado e demasiado grande, estava ela.
Nunca faltava. Sentada de forma desajeitada na cadeira, ela passava os produtos
pelo leitor de código de barras num ritmo único. Cada produto era manuseado de
forma que chegava ao leitor na mesma fração de segundos, de forma
inconscientemente calculada. E mesmo quando algum produto mais rebelde a
atrapalhava, ela digitava o código de barras no teclado com a mesma precisão
rítmica.
Alberto já conhecia tudo isso de
cor e salteado, pois já estivera naquela fila centenas de vezes. Por vez ou
outra, fechava os olhos e deixava aqueles sons o hipnotizarem. E junto à
hipnose, entrava em devaneios. Devaneios nos quais ele e ela estavam a sós no
supermercado completamente vazio. Não havia outras pessoas, não havia
prateleiras, não havia outros caixas, nem nada além dele em pé na fila vazia,
observando-a, e ela passando os produtos no leitor de código de barras, naquela
valsa rotineira e automática.
A fila avançava, e Alberto
chegava cada vez mais próximo ao caixa. Mais próximo dela. Já podia ler seu
crachá preso ao avental, no qual letras grosseiras soletravam seu delicado
nome: Ana. Podia também ver os detalhes de suas mãos pequenas manuseando os
produtos, e seus cabelos longos presos em um rabo-de-cavalo que pousava sobre
os ombros. Acima de tudo, Alberto podia sentir seu próprio coração batendo no ritmo do
leitor de código de barras. E podia ouvir a voz dela. Nota fiscal paulista? Pode inserir o cartão. O cliente ia embora
sem lhe dar muita atenção, e mais produtos passavam pelo leitor. E o coração de Alberto acompanhava: tum-tum-tum-BIP-tum-tum-tum-BIP-tum-tum-tum-BIP.
Ela não olhava pra cima e nem
para os lados. Na realidade, aparentava estar hipnotizada assim como Alberto naquela
rotina, e as pessoas que ela atendia eram como os produtos que passava no leitor.
Do outro lado da esteira, em pé, os clientes ignoravam completamente o
espetáculo de beleza e precisão que era Ana, e fitavam o monitor em busca de um
erro do supermercado. Na etiqueta estava
escrito R$ 4,96, moça. Ana então apertava um botão, e a pausa gerada em nada amenizava o coração de Alberto. Somente prejudicava o seu samba, que, no silêncio da cuíca,
prosseguia firme no surdo: tum-tum-tum-tum-tum-tum.
Um homem de patins aproxima-se
do caixa, e sai deslizando em disparada com uma lata de extrato de tomate em
mãos. No caixa, o motivo de Alberto ter vindo ao supermercado olhava para o
chão, olhava para as unhas, olhava para os produtos que eram entulhados por uma
adiposa senhora na ponta da esteira. E ele olhava para ela. Olhava o homem de
patins - outro bailarino da rotina, diga-se de passagem – voltar e resolver em
segundos o impasse do extrato de tomate. Alberto queria ser ele, debruçado
sobre os ombros dela, digitando algo no teclado em que ela - vez por outra - solava.
A fila do caixa já se estendia
pelos corredores e fazia curva, e vez por outra Alberto sentia-se observado com
estranheza. A cinco metros dele, a fila do caixa-rápido avançava a passos
largos. A senhora na fila ao lado – que havia tentado convencê-lo há pouco -
comentava algo com um senhor sobre o tempo de espera, e Alberto desconfiava que
fazia parte de suas reclamações. Mas ele ignorava. Permaneceria ali o tempo que
fosse necessário para poder ficar de frente à atendente do caixa de número
seis. Ela não sabia, mas ela era como um fogo que o aquecia por dentro. A cada
passo que Alberto dava em direção ao caixa, mais ele sentia-se como um balão prestes
a levantar voo.
Alberto estava de frente para
ela. E ela estava de frente para um tubo de desodorante e um pacote de pão. Nota fiscal paulista?-tum-tum-tum-Não, obrigado.-tum-tum-tum-BIP-tum-tum-tum-BIP-tum-tum-tum-Débito ou crédito?-tum-tum-tum-Débito.-tum-tum-tum-Pode digitar a senha.-tum-tum-tum. Enquanto Alberto ensacava suas
compras, repentinamente corou com a ideia de que fosse possível que escutassem
seu coração do lado de fora de seu corpo. Ana lhe estendeu a pequena mão
segurando a nota fiscal, porém Alberto não percebeu, e quando ele levantou os
olhos, viu que ela olhava diretamente para eles. Tinha uma expressão séria e
calma. E olhos brilhantes. Ele agradeceu com a boca completamente seca, e
partiu.
Andando a passos rápidos pela
calçada, com o coração acalentado voltando ao ritmo normal, Alberto tentava não
chegar muito atrasado ao trabalho. Mas já se passavam vinte minutos da uma hora da
tarde, e ele foi repreendido pelo seu chefe, que o aguardava para um
compromisso. Alberto escutou as queixas pacientemente e justificou-se, sem
mentir, dizendo que tinha ido ao supermercado e não havia caixa-rápido nenhum. Deixou,
porém, de completar a frase: não havia caixa-rápido nenhum que pudesse acompanhar tão bem as batidas de seu coração.
Já não respondo mais por mim
Fiquei no caminho e o que
Aqui chegou é algo outro
De aparência igual
Porém pouco
se assemelha ao original
Entrecortado
Passei trinta anos falando
De boca cheia, dormindo, tossindo
E indo
De um lado ao outro, sem ter alguma certeza
Ando muito (porque é minha natureza)
Todo o resto que faço é falso
Pretensão tola
Uma árvore alta de raiz pequena
Um jogo de cena
É triste ver no que nos tornamos
Depois de
trinta anos
Depois de
trinta co(r)pos
Depois de
trinta horas de sono
Acordar e olhar pela janela:
Tanta ofensa
Tanta pobreza
Tanto carro capotado
Tanta gente
doente
Tanto ódio
Tanto medo
Tanta gente
mijando na rua
Tanta dor de
dente
Tanta fome
Tanta
ausência
Tanta gaiola
Tanta alma
carente
Tanta multa
Tanta
incompreensão
Tanta
mordida de cachorro
Tanta dor de
gente
Tanta coisa
pra pensar
pra fazer
E eu aqui
escrevendo essa porra de poema
E mentindo
pra mim mesmo que ficou parecido com Ferreira Gullar
Esse
poema é pra ler pelo cu.
É
pra entrar pelo reto
Passar
pelas vísceras
Como
um bolo fecal reverso
É
pra ficar de quatro
E
abrir bem esse olho pequeno
O
verso já conhece o caminho
Pelo
cólon e pelo duodeno
E,
quando cobertas em suco
Biliar
e em muco estomacal
As
estrofes chegarem à boca
Sairá
rouca pulcra poesia anal
foi quando ela atingiu
o espaço
sideral, longe quilômetros
dos
liquidificadores, patos e escavadeiras,
que lhe veio a
ideia de que tudo - nos armários,
porta-retratos,
geladeiras, cofres, roupa nas cadeiras
- tudo isso que
se tem, vale tanto quanto aquilo que falta.
não voltaria
tão cedo a ter alguma coisa, pensou ela, tendo
o nada à sua
frente, muito maior e imponente do que o tudo.
enquanto ela
cambaleava entre os planetas, tentava, contudo,
encontrar
alguma gravidade ou algum ponto de apoio onde fosse
possível
descansar. a viagem fora longa, e lhe parecia que tempo
e mente já não se entendiam mais. e percebeu que
desaprendera
fazer coisas
que antes fazia sem problemas. ela esquecera como
ler o relógio
de pulso, coisa tida lá na terra como corriqueira,
bobeira do
dia-a-dia. então, lhe veio a segunda reflexão, de
que tudo isso o
que se sabe, vale tanto quanto o que se
desconhece. e se às vezes, devido à distância de um
milhão de
anos-luz, ela se esquece, é porque
agora não
precisa mais saber tomar banho,
abrir uma
porta, fritar um bife ou
preencher um
cheque.
olhou pros
lados
e se sentiu
feliz de saber que já
não havia a
menor possibilidade de voltar.
aquela era uma
viagem sem volta, sem remorso e
nenhum medo, e
não havia nela o mais mínimo desejo
de voltar a ver
gente, de dormir abraçada numa noite fria,
de comer
feijoada numa tarde quente, de botar as mãos na pia
e ouvir o
barulho da água, de ouvir mais uma vez o disco do jorge
ben e se
perguntar mais de uma vez se eram os deuses astronautas.
ela não ia mais
abrir nenhum vidro de palmito, nem falar ao telefone,
nem comemorar
natal, nem visitar a tia de carro, nem pular o carnaval.
ela estava serena com a ideia de flutuar eternamente,
de abandonar seu corpo na terra enquanto a alma deslizava
entre as
estrelas. ela agora pensava na sua carne como um ponto num bordado, ou um furo
numa peneira. só mais um corpo enfim desocupado.
por um instante
tentou lembrar-se de como era mesmo um corpo, mas sua mente formou uma imagem de
algo parecido com uma estante.
ela já
imaginava que muito em breve sua mente começaria a lhe apagar tudo o que não
fosse importante.
não sentia pena
dos que ficaram, sentia, porém, pena dos que não foram,
e que continuaram
poros, cabelos e dentes. cabeça, tronco e membros.
percebeu que
mesmo aquela ideia se esvaía, sumia na escuridão. não
se lembrava
mais de como era uma genitália e qual a cor do leite, e
logo esquecia o
significado das palavras que acabava de pensar.
enquanto virava
nada, lhe veio a terceira revelação: de que
não se deve dar
nome a nada, pois palavras são prisão.
e tudo se
apagou então. todo significado sumira
e não haviam
mais formas, cores ou som,
e até mesmo o
nada e o vazio
se revelaram
ilusão.
no segundo
em que ela
virou
planeta, sentiu
todo
o amor do
universo.
só isso lhe restou
do mundo.
Pedalo
Por um
segundo,
Por um
metro de vento,
Hipnotizo
um para-choque;
Paraliso
o tempo.
Sigo
lento,
Fito os
olhos; vidros,
As peles
plásticas, bocas
buzinas,
os metais-corações.
Paro;
E amarro
o metro
E o
segundo de vento,
Amarro-os
na grade do prédio,
Ainda
quente por dentro.
E sigo
lento,
Com meus
olhos; vidros,
Minha
pele plástica, boca
buzina,
meu metal-coração.
Quero
viver
Numa casa
tranquila
Entre
cortinas âmbar
E visitas
no chão
Quero
viver
Num lugar
pequeno o tão
Que me
expulse pra rua
Ora de
supetão
Quero
viver
Num
desses dias brandos
Em que o
sol entra pela janela
E
esquenta o colchão
Quero
poder
Tomar uma
cerveja à tarde
E queimar
os lábios na tua nuca
Antes que
o disco acabe
E na
manhã seguinte
Deixar
que a imaginação
Esfrie o
café quente
E traga o
pão
Era 31 de agosto de 2027. Logo de
manhã - após duas semanas de confusão e protestos - foi finalmente decretado ‘estado
de defesa’ na cidade e no estado de São Paulo. Em transmissão oficial, o
presidente da república falou ao lado da governadora e do prefeito sobre o que
chamou de ‘grave ameaça à ordem pública e à paz social no estado de São Paulo’,
e, na sequência, uma apresentadora informou a suspensão de alguns dos serviços
públicos, o transporte coletivo sendo o mais crítico. Feriados foram decretados
em algumas cidades do interior, sendo facultativo - porém incentivado - que
empresas localizadas na cidade de São Paulo também dispensassem seus
funcionários por alguns dias. Muitas empresas já haviam parado suas atividades
dias antes, incapazes de continuar. O anúncio do governo tardou a sair, e de
nada resolveu a situação, senão a tornou mais absurda. Protestos violentos que
cresciam a cada dia tomavam destaque na cidade cada vez mais calma e deserta.
Já não se viam mais as filas quilométricas nos postos de gasolina – ‘a nova
corrida pelo ouro’, segundo os telejornais -, e as ruas repletas de carros da
capital foram tomadas pela gente descrente de que o impossível havia acontecido.
As últimas reservas de combustível haviam acabado
em São Paulo. E não só na cidade de São Paulo, como também em vários pontos do estado.
Alguns poucos caminhões-pipa traziam o combustível necessário para ambulâncias
e outros serviços básicos, vindos de outros estados onde o racionamento era
crítico, mas ainda estável. O mercado clandestino também esgotava suas reservas
rapidamente, e os pequenos caminhões e carros sem placas que circulavam com
galões e tonéis de gasolina pela cidade se tornaram cada vez mais raros, chegando
ao ponto em que mesmo a polícia não tentava mais impedi-los. Segundo a polícia,
havia um saldo de mais de cento e trinta postos de gasolina destruídos na
cidade de São Paulo. Isso foi capa dos jornais no dia 01 de setembro. A matéria
do jornal mais popular mostrava uma foto de uma viatura de polícia parada em
frente a um posto cujas bombas foram arrancadas do chão, e ainda se via o
cartaz de papelão colado no poste: ‘GASOLINA: Não temos / ÁLCOOL: 29,99 /
DIESEL 21,99’. A viatura de polícia na foto também estava sem placa.
As estradas, principalmente as que ligam a capital
com o sul do Brasil ou as que seguem para Minas Gerais, estavam paradas desde o
dia 24 de agosto, e sempre que possível, os telejornais mostravam fotos do
enorme estacionamento a céu aberto em que haviam se tornado. Alguns donos de
carros ainda dormiam dentro de seus automóveis, mas poucos tinham algum
combustível sobrando que os pudesse levar a algum lugar caso o trânsito fosse
desobstruído. Outros carros haviam sido abandonados, e começavam a sofrer os
danos desse abandono: pneus roubados, vidros quebrados, e portas arrombadas.
Não só nas estradas, mas também nas marginais dos rios Pinheiros e Tietê - entre
outras vias de grande fluxo - o fenômeno se repetia. Sendo nos bairros e vias menores, em menor escala. Mas havia carros parados em todo lugar.
Como era de se esperar, o preço das passagens
aéreas explodiu. Com capacidade reduzida de destinos devido à falta de
querosene de aviação, e a desculpa da queda de demanda para voos com destino a
São Paulo, as companhias aéreas ofereciam passagens de São Paulo com destino ao
Rio de Janeiro a R$ 3.500,00 o trecho, e com destino a Fortaleza a R$ 7.000,00
o trecho. Nessas duas cidades, a escassez de gasolina e diesel ainda não havia
atingido níveis tão críticos.
Enfim, o que aconteceu com o suprimento de
combustíveis em São Paulo era resultado de diversos fatores naturais e políticos. Em 2021,
com o avanço da exploração de petróleo nas camadas mais profundas do oceano, especialistas
descobriram que havia oito vezes mais petróleo nas bacias subterrâneas do que o
que fora calculado e divulgado antes de se iniciarem as perfurações. Houve
grande comoção do governo devido ao fator financeiro desta descoberta, porém, com a
crise mundial, a exportação do petróleo não seria rentável, visto que o saldo
da exportação de petróleo cru contra a importação de petróleo refinado seria
desfavorável. Desta forma, foi instaurada uma lei que obrigava 100% das
empresas situadas em território brasileiro a comprem petróleo de refinarias
nacionais. A oferta do petróleo cru, a princípio, atenderia a demanda com
grande folga. O problema era que a qualidade do petróleo cru que estava sendo
explorado era muito pior do que a do petróleo importado, problema que demandaria
um grande investimento em infraestrutura e tecnologia para ser resolvido. As
empresas privadas às quais foram vendidas as concessões das bacias subterrâneas
- da extração ao refinamento –, após diversos escândalos e fraudes largamente
divulgados na imprensa, não trabalhavam com infraestrutura suficientemente
segura. Boa parte das obras das refinarias havia sido superfaturada e
construída fora das especificações, o que gerou problemas diversos, culminando
na explosão de uma torre de destilação em Santos, onde o petróleo parcialmente
evaporado a 370 graus Celsius matou doze pessoas e deixou mais uma dezena de
feridos. Após esse incidente, muitas refinarias foram fechadas. E a capacidade
das dezenove refinarias que funcionavam de forma segura, não atendia mais o
mercado nacional, principalmente em alguns pontos cruciais onde o consumo era
muito alto. O governo não divulgou para a população nenhuma medida para
solucionar o problema, mas sabia-se que a importação, após muitos embates do
governo com refinarias estrangeiras, não seria uma opção.
Após a transmissão oficial do dia 31 de agosto de
2027, grandes mudanças ocorreram na cidade, uma delas sendo a forma de se
trabalhar. Muitas indústrias adotaram soluções temporárias, contratando somente
operários - por tempo determinado - que morassem próximos às fábricas. Os
turnos também foram reduzidos, de forma que os operários pudessem sair para
almoçar, visto que o suprimento de comida em grandes quantidades ainda era um
problema. Os escritórios, em sua maioria, permitiram que os funcionários
administrativos trabalhassem em casa, utilizando a internet e o telefone.
Reuniões eram feitas através de conferências em vídeo, quando se faziam
necessárias. Para os comércios de rua e os restaurantes, a situação foi mais
crítica. Alguns comerciantes foram obrigados a fechar as portas ou focar somente
no comércio local, pois locais como as avenidas Faria Lima e Paulista tiveram
uma drástica queda de transeuntes. Restaurantes, em grande parte, fecharam
devido à escassez de alimentos.
Também um dia após ser decretado ‘estado de defesa’
em São Paulo, o CEAGESP foi saqueado, assim como inúmeros supermercados pela
cidade. A polícia pouco fez a respeito, e justificou as demoras em atender as
denúncias dizendo que ‘não havia a infraestrutura necessária para a ação de
seus homens’. Nos dias seguintes, a polícia militar adotou a estratégia de formar
grupos de patrulhamento a pé com no mínimo dez policiais por grupo, e, nos
poucos casos em que agiu, agiu brutalmente e fez poucas apreensões. Poucas
viaturas ainda circulavam pelas ruas, sendo substituídas em parte por cavalos. O
conselho de Defesa Nacional estudava se era caso para o envio das forças
armadas.
Enquanto muitos se desesperavam com o caos e a
sensação de estarem ilhados - como se ao lhes tirarem o combustível, lhes houvessem
tirado a própria mobilidade - alguns poucos lentamente descobriam novas
formas de se locomover e subsistir. Alguns dias após o decreto oficial - transmitido
pela televisão e rádio, e reproduzido impresso nos jornais -, pessoas começaram
a se organizar e replanejar suas vidas. Como a calmaria que segue à tempestade,
um crescente senso de comunidade floresceu em muitos pontos da cidade. Uma
repentina empatia entre vizinhos, amigos, e conhecidos, começou a gerar
soluções locais para algumas das principais necessidades básicas.
Uma dessas soluções foi a criação dos comboios de
ciclistas. Com a falta de combustível, o uso da bicicleta se tornou –
naturalmente - massivo. O comboio de ciclistas servia para que as pessoas não
tivessem que se locomover sozinhas pela cidade, criando maior segurança para
que crianças e idosos pudessem também utilizar a bicicleta no seu dia-a-dia,
sem medo de assaltos, e ajuda no caso de acidentes. Foram definidos pontos de
encontro pela cidade, onde as pessoas poderiam aguardar com suas bicicletas e
adentrar o grupo assim que ele passasse. As rotas haviam sido pré-definidas, e
eram basicamente inspiradas nas principais rotas de ônibus, além de rotas
específicas para escolas – pois as aulas não haviam sido suspensas. Ao mesmo
tempo em que pessoas deixavam o comboio quando chegavam ao seu destino, novas
pessoas juntavam-se a ele ao longo do percurso. A rota era sinalizada pelos
próprios ciclistas, que gritavam o destino final do comboio ao passar pelos pontos
de encontro.
Após alguns dias, foi até criada uma rota para o
litoral, que saía todas as sextas às 17h, passando por Santos, Guarujá e São
Vicente, e voltava no domingo até o terminal Jabaquara do metrô. Foram feitas
muitas campanhas independentes de doação de bicicletas, que, por incrível que
pareça, geraram grandes resultados. Houve também a tentativa de formar comboios
de skates, patins, cavalos, e tudo mais que se possa imaginar, mas nenhuma teve
tanto sucesso quanto o comboio de ciclistas. O skate, porém, teve um grande
papel no deslocamento urbano de curta distância, pela sua facilidade de ser
carregado e guardado. Alguns skatistas mais experientes se reuniam para dar
aulas a iniciantes na marquise do parque Ibirapuera e na Avenida Paulista,
cerca de duas vezes por semana. O objetivo, muito mais do que o esporte, era
ensinar a utilizar o skate como meio de transporte na cidade.
Logo que perceberam que os combustíveis começavam a
se tornar escassos, alguns grupos bem intencionados começaram também hortas
comunitárias. Porém essas hortas logo se tornaram um fracasso. Durante os
primeiros dias de caos, muitas pessoas se aglomeraram em supermercados e pagaram
preços exorbitantes para comprar e estocar alimentos em casa, enquanto outras pensavam
em formas alternativas de conseguir o alimento de forma mais digna e simples.
As feiras livres praticamente desapareceram, e o abastecimento dos
supermercados foi drasticamente reduzido devido às dificuldades de transporte.
Muitos produtores de outros estados - e alguns do interior - ainda se
arriscavam entregando sua produção para transportadoras que transitavam pelas
estradas que não estavam bloqueadas, e chegavam a São Paulo carregando galões de
diesel extra para garantir sua volta. O problema maior acabou se tornando a
distribuição na cidade, e não a chegada dos alimentos do interior e outros
estados a São Paulo. Passadas algumas semanas, a maioria dos produtores acabou
optando por fornecer para outras cidades, enquanto alguns simplesmente perderam
sua produção. Durante esse tempo de escassez de alimentos, quase não se via
carne, e mesmo os produtos básicos como arroz e feijão estavam com preços
inflacionados ao absurdo. Foi nesse cenário que se proliferaram os tais projetos
de hortas comunitárias. Com o objetivo de plantar legumes e verduras em
conjunto com outros moradores em áreas comuns como parques e praças, logo as
hortas se tornaram alvo de discussões e polêmicas. Muitas pessoas que não
haviam contribuído para uma dada horta passaram a colher nela, o que gerou
desconforto entre os moradores, e, principalmente, a desilusão dos idealizadores
do projeto.
Após o fim da maioria das hortas comunitárias em
espaço público, porém, muitas pessoas inspiradas no sistema haviam começado
suas próprias hortas em casa, ou com amigos e vizinhos. Com as hortas em menor
proporção, e com menos pessoas participando, o sistema pareceu funcionar razoavelmente
bem. Com um pouco de paciência e ajuda da primavera que se aproximava, era
possível colher Rabanete e Rúcula em duas semanas, e Nabo e Abobrinha em menos
de cinco semanas. Infelizmente, a grande maioria da população paulistana não
aderiu à prática - cobrando soluções exclusivamente do estado para os problemas
causados pela falta de combustíveis -, e acabou por alimentar-se somente de
alimentos não perecíveis, que, por volta de 20 de setembro já chegavam
diariamente a São Paulo em comboios de caminhões do exército. Os integrantes
das hortas, por outro lado, além da alimentação orgânica, incrementavam cada
vez mais o plantio com alface, tomate-cereja, brócolis e couve-flor, que no
meio de novembro já estavam no ponto para serem colhidos.
Outro fenômeno interessante ocorreu nesse período
de exiguidade, basicamente gerado pelo fato de que as pessoas saíam agora nas
ruas sem estarem fechadas em seus automóveis. Pouco a pouco, vizinhos começaram
a se ver e a se reconhecer no bairro. E, com o aumento na frequência desses
cumprimentos - no início somente educados -, surgiram pequenas e grandes amizades.
Observava-se claramente uma necessidade de conversar sobre a situação e
compartilhar informações. Logo que um morador de um prédio descobria um bom
local para comprar ovos frescos por um preço justo, por exemplo, já
compartilhava tal informação com os outros moradores de seu prédio e até com
desconhecidos nas ruas. Havia uma crescente necessidade de socializar, e com
isto, os espaços públicos antes exclusivamente reservados para carros –
avenidas, ruas - começavam a ser utilizados para reuniões e até pequenas
festas. Os moradores da cidade que não haviam ido embora cada vez mais se
contentavam em passar os finais de semana na própria vizinhança. Não raro,
surgia algum convite para o almoço ou jantar na casa de um recém conhecido
antigo vizinho. Refeição que quase certamente era retribuída. Aquela carne
moída de patinho, que fora conseguida a duras custas num supermercado lotado, e
congelada por dois meses como se fosse uma iguaria, finalmente era saboreada e compartilhada.
As ruas vazias e estacionamentos, após serem usados
pelas crianças e jovens durante o dia para a prática de esportes ou
simplesmente para a vagabundagem, frequentemente eram palco de
confraternizações organizadas pela vizinhança nas noites de sábado e tardes de
domingo. Na impossibilidade de visitar parentes no interior, ou de ir descansar
na praia, os paulistanos acabavam por encontrar-se mais com amigos próximos –
em distância e afinidade. Às vezes, acontecia de um amigo de um amigo de algum
conhecido aparecer de bicicleta em alguma dessas festas, segurando uma garrafa
do vinho português Quinta do Noval
que estava guardado há gerações esperando por uma ocasião especial. A escassez
de bebidas alcoólicas desenterrava tantas dessas garrafas - de uísque, vinho,
champanhe - guardadas para ocasiões especiais, que no final de setembro um
coletivo até criou uma festa chamada ‘Ocasião Especial’ que acontecia todas as
quintas-feiras dentro do túnel Ayrton Senna na Avenida Vinte e Três de Maio.
E assim passou o tempo, até o dia 28 de dezembro de
2027, quando, numa tarde calma e de clima ameno, os primeiros caminhões-pipa
chegaram a São Paulo trazendo as primeiras levas de combustível, que - de
acordo com a transmissão oficial do governo - voltava a ser produzido e
entregue em níveis normais.
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